Mulher com as mãos na graxa

Mulher com as mãos na graxa

Leandra Giovanetti

Os tempos mudaram, evoluíram, mas ainda continuamos tachadas de "sexo frágil". E quando o assunto é trabalho pesado, "de homem", a situação piora. Mas, no caso da mecânica Leandra Giovanetti, essa lógica não funciona.

Formada em pedagogia, ela engravidou cedo, teve que casar - e parou de dar aulas por conta disso. Quando estava pronta para o mercado, as portas não estavam tão abertas assim para ela. "Depois que minha filha cresceu, tentei voltar, mas só recebi negativas. Quando conseguia algum trabalho, era pouco remunerado. Nesta fase, estava frustrada e decepcionada, mas não desisti", lembra.

E como não tinha esperanças de voltar a dar aulas, começou a fazer diferentes trabalhos, pequenos, que rendessem algo para ajudar no orçamento da casa. Ficar parada estava fora de cogitação. "Fiz salão de beleza em festas infantis, brigadeiro em casa com a minha mãe, fiz um pouco de tudo", conta.

O pai de Leandra é dono de uma oficina de carros desde 1956 - a primeira a consertar carros ingleses em São Paulo. Foi nela que a grande chance surgiu. A oficina estava precisando de um ajudante e lá foi Leandra tentar a vez. "Agarrei a chance com unhas e dentes. Era uma missão árdua, pois não sabia nada de mecânica. Apesar de uma certa familiaridade com o universo de uma oficina, não sabia nada. Absolutamente nada!", confessa.

Incentivada pelo pai, tratou de se matricular em um curso de mecânica. Mas mesmo assim, revela que muito das coisas que sabe aprendeu sozinha, na raça, "quebrando a cabeça e errando muito", como ela mesma conta. "Aprendo todos os dias. Sou curiosa e não tenho mais tanto medo de errar. Leio muito - artigos, revistas, jornais, até papelzinho de garantia - e estudo nas horas vagas. Quando não sei, pergunto, vou atrás, faço anotações e assim vou eu!"

Para a sorte de Leandra, a família encarou numa boa a profissão. "Alguém teria que seguir o caminho do pai e, neste caso, quem seguiu foi uma menina", diz. "Minha mãe sempre falou: ‘vai que você consegue! ’, mas confesso que foi muito difícil no começo. Eu levantava um capô e tinha vontade de sair correndo. E para conversar com os clientes? Nossa, queria morrer!", relembra a mecânica.

Mulher com as mãos na graxa

Ela se deu tão bem que até o marido dá total apoio. "Ele me incentiva muito. Acho que a minha profissão ajudou no relacionamento, pois conseguimos conversar de igual para igual. Ele tem muito orgulho do que eu faço e conta para todos seus amigos. Acho que fazemos um par perfeito", se derrete.

Mas como nem tudo é perfeito como a relação dos dois, alguns amigos de Leandra estranharam a iniciativa e não botaram muita fé na profissão que ela escolheu. Fora isso, ela enfrentou e enfrenta o machismo do meio - todos os dias, numa luta constante para conquista de espaço. "Alguns homens são machistas demais, cabeça dura. Às vezes, não querem nem conversa comigo e tenho que me impor, mostrar meu valor e que sou capaz", revela. "Alguns me respeitam e me procuram, ligam para tirar dúvidas e elogiam. Outros, entram e me ignoram completamente".

Para Leandra, o momento atual é ideal para que as mulheres se aventurem no mercado masculino. "Competimos de igual para igual com os homens, de maneiras diferentes, mas no mesmo nível. Nós estamos capacitadas tanto quanto eles e temos como diferencial o charme e a paciência. Acredito que o mercado esteja à procura de novos talentos femininos", afirma.


Leandra diz ainda que o mais importante é não desistir jamais. "Temos essa força. Então tenha fé e pense sempre positivo. Não tenha medo de errar e não se importe com que os outros irão falar de você. Siga em frente sempre. Prepare-se para o mercado de trabalho. Estude, leia, pesquise, converse com todos - algumas boas ideias e ensinamentos estão em um simples bate-papo - e, principalmente, confie na sua capacidade".

Por Tissiane Vicentin (MBPress)

Comente