Mulher boa de taco

Mulher boa de taco

Em 1875, o snooker foi inventado pelos britânicos. Um exercício para corpo e mente, queima 250 calorias por hora e diminui o déficit de atenção. No Brasil, o esporte - reconhecido desde 1988 - teve o nome adaptado para sinuca. Mundo afora, continua animando noites de muitos botecos e bares. É praticado normalmente por homens, em alguns casos ganhou status de boêmia e virou pesadelo para mulheres casadas à espera do marido sinuqueiro. Mas esse definitivamente não é caso de caso de Silvia Taioli Cordeiro, profissional do taco.

Tudo começou com Luiz Carlos, pai de Silvia, jornalista da "Folha de São Paulo" e revisor de textos. Enquanto esperava a edição da noite chegar, ficava treinando seus dotes em um bar perto da redação. Incentivado pela lembrança daquelas noites, Luiz comprou uma mesa de bilhar própria para a nova casa que havia construído. "Como filha mais velha, ele me escalou para ser sua parceira, em noitadas regadas a música dos anos 40 e 50, bárbaras!", relembra a filha, campeã brasileira de sinuca.

Esse título não chegou fácil e é resultado de muito treino e boa dose de talento. "Comecei a disputar campeonatos aqui no bairro de Interlagos e os meus treinadores foram figuras lendárias da zona sul, como Fantasia, Guiza, Sagú e Garagem. A partir daí, não parei mais. Em 1997, fui contratada para ministrar aulas três vezes por semana na AABB [Associação Atlética Banco do Brasil]. A seguir, outros clubes me contrataram, como Paulistano, Harmonia, Alto de Pinheiros, Ipê e Sírio, simplesmente os melhores clubes. Aí, o que era lazer para mim, virou profissão", lembra. A coisa ficou séria e ela abandonou a engenharia química, vendeu a loja de frios e importados que tinha e resolveu se dedicar totalmente à sinuca.

Como toda mulher num ramo predominantemente masculino, Sílvia teve lá seus desafios, floreado de encanto feminino. "No começo, quando eu entrava nos salões para jogar com meu técnico, os homens estranhavam e quando eu saía de perto, vinham perguntar a ele quem eu era. Como tinha uma postura perfeita, os proprietários dos salões vinham dizer que eu era bem vinda não precisava pagar o tempo da mesa. A partir daí, os homens passaram a conviver comigo numa boa e sempre me trataram como um deles", conta.

Essa sinuqueira contou com a sorte grande e não teve problemas com machismo. "Quando fiz o curso de arbitragem e passei a atuar, vi que isso gerava desconfiança por parte dos jogadores no início, mas treinei e estudei para que pudesse conhecer a regra a fundo e atuar com discrição. Mais uma vez fui bem aceita. Até hoje, meu celular toca tarde da noite, para dirimir alguma dúvida que tenha surgido durante uma partida do campeonato", revela Silvia, que atualmente também carrega o título de árbitra oficial da Confederação Brasileira de Sinuca.

Quando venceu pela primeira vez um campeonato, sentiu todo o orgulho que o título traz e decidiu passar os conhecimentos adiante. E nisso também teve sorte com a reação da ala masculina. "Eles até preferem uma mulher ensinando, pela delicadeza, paciência e descontração que posso oferecer", orgulha-se Silvia, também autora do manual "Instrução Básica de Sinuca".

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Com esse dom nas mangas, ela não poderia deixar as mulheres de fora, afinal, tinha que defender o seu lado. "Comecei a notar que as mulheres ficavam excluídas quando o assunto era sinuca. Os homens jogando e elas sentadas, assistindo até entediadas, por não poderem participar. Muitas tentavam jogar, mas era um fiasco". Por isso mesmo, criou um curso especialmente para o "sexo frágil", mostrando os atrativos e benefícios físicos que o esporte traz. "E quando sei que uma aluna ganhou do amigo, namorado, marido, para mim é a glória!", se delicia a jogadora, que também é comentarista de bilhar do canal a cabo "ESPN Internacional".

Com a repercussão que toda essa dedicação alcançou, o "Boteco Rabo de Peixe", da Vila Madalena, em São Paulo, propôs uma oferta irrecusável. "Adorei a casa e, em uma atitude inovadora, instituíram o curso e campeonato de sinuca só para mulheres", comenta.


"É uma oportunidade única de praticar um jogo que remete à antiga e boa ‘malandragem’, malícia e picardia dos velhos tempos, que eram tão mais inocentes e românticos do que hoje. Além de ser um esporte elegante e chique, que na Europa só era praticado pela nobreza, traz benefícios ao corpo e mente. E no mínimo, você vai fazer novos amigos e quem sabe, encontrar o amor da sua vida". Falando assim, dá vontade mesmo de jogar...

Por Tissiane Vicentin (MBPress)

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