Mudança de Emprego - evoluir é diferente de fugir

Em uma recente pesquisa global realizada pela empresa de recrutamento Robert Half, foi revelado que cerca de 40% dos profissionais em posição executiva no Brasil pensam em mudar de emprego nos próximos seis meses. Sem dúvida alguma trata-se de um volume significativo. Tão significativo que me chamou a atenção para pensar nos motivos que levam essas pessoas a seguir esse caminho.

Para mim não há espanto algum nessa decisão, nada mais legítimo considerando as ambições de cada um e o conjunto de oportunidades disponíveis, ainda mais quando se trata de um mercado aquecido como o nosso. Mas o que chama a atenção é o percentual. Estamos falando de 40%! Isso não é pouca coisa.

Fiquei curioso e quero compartilhar com vocês uma reflexão. Quando ainda estava na faculdade, lá no século passado, no início dos anos 90, especialistas alardeavam que a fase dos empregos estáveis, das carreiras construídas ao longo de décadas em uma única organização tinha os dias contados. Me formei com essa máxima na cabeça, sentindo pena daqueles que tinham acreditado na antiga modinha corporativa, onde construir uma carreira estável de anos numa empresa coroava o candidato com o status de confiabilidade, estabilidade e profissionalismo.

Mas quando comecei a minha vida profissional, a modinha vigente era a antítese disso: nela reinavam os conceitos da instabilidade, do culto a múltiplas experiências, da mudança como rotina, do comando da própria carreira, do você S.A.. Depois, como tudo amadurece, as empresas e especialistas começaram a rever estes conceitos (isso traz um alerta: toda modinha passa por revisões que às vezes pode ser brutal) e concluíram que um profissional que muda de emprego a cada dois anos, não consegue construir uma história de fato, não consegue absorver experiências na profundidade necessária para aplicá-las nas suas futuras colocações. Essa visão, muito mais coerente é nova e trouxe consigo a preocupação dos esforços para a retenção de talentos nas corporações.

Nada mais razoável, afinal de contas, contratar gente nova para as mesmas posições se configura como uma atividade de alto risco e custosa para as corporações. Ocorrendo freqüentemente, pode significar um verdadeiro desastre. Conheço uma executiva de vendas que teve a direção de sua área ocupada por três pessoas diferentes ao longo de um ano.

No meio disso tudo, o que se observa de fato nas empresas é uma alta rotatividade profissional, motivada por questões internas em um momento, e em outros pela iniciativa individual de executivos e executivas. O resultado não é lá um mar de rosas: subordinados inseguros com a rotina de constantes alterações de equipe, processos interrompidos pela segunda ou terceira vez, retomadas constantes de projetos, mudanças repentinas de rumo, tentativas frustradas de novas e melhores colocações que nem sempre correspondem as expectativas. Um emaranhado caótico de administrar.

Então pensei em alguns questionamentos para serem feitos, antes que esses processos tenham início.

Para as empresas

1 - Trocamos a direção de determinada área três vezes ao longo do ano. De quem é o problema, das pessoas que contratamos ou seria a empresa em si com sua cultura de gestão?

2 - Qual é o motivo que fez com que esse profissional tão adequado, engajado e motivado do passado se transformasse nisso que queremos hoje substituir?

3 - Vale a pena mesmo demitir essa (e) executiva (o), simplesmente pelo fato de que queremos adotar um novo modelo cultural de gestão? Não estaria essa pessoa apta a se adaptar e continuar conosco?

Para os profissionais

1 - Qual é o motivo real da minha intenção de mudar de emprego? É a remuneração impossível de ser alterada ou é o escopo de trabalho que possivelmente pode ser revisto?

2 - Estaria eu no momento ideal de trocar de ocupação com tão pouco tempo de vivência na área? Quais serão as conseqüências disso para o meu histórico profissional?

3 - Em uma análise criteriosa e totalmente desprovida de emoção, a nova oferta de emprego justifica realmente o meu pedido de demissão?

4 - Os problemas que me levam a querer sair da empresa, são mesmo impossíveis de serem solucionados? Será que não poderiam ser contornados de uma forma satisfatória?

5 - Não valeria a penas insistir um pouco mais e ganhar experiência com o momento difícil pelo qual atravesso, ao invés de simplesmente abandonar o barco?


Vejam bem, não se trata aqui de defender o comodismo, mas de prezar pela ponderação. De buscar mudanças profissionais que sejam realmente benéficas, proveitosas, e interessantes, mas antes de tudo, de fugir das fugas.

Gustavo Chierighini, atento observador do universo corporativo, é fundador e publisher da Plataforma Brasil, especializada em informações e conteúdos de inteligência empresarial. www.pbrasilnet.com.br

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