Metida, não! Metada!

Metada ? Sou capaz de imaginar no seu olhar, leitor, uma certa perplexidade e a pergunta: é erro de digitação ou de ortografia? Nenhum dos dois, eu garanto. Trata-se apenas de um bom exemplo da minha mania de inventar palavras para definir e identificar situações, pessoas ou idéias. E por metada entendo alguém que tem metas - ou seja, organiza a vida pessoal e profissional de acordo com objetivos claramente estabelecidos, sendo fiel a eles sem perder de vista sua missão e princípios éticos como respeito, verdade e honestidade.

E foi esta expressão que me ocorreu ao refletir sobre a mensagem enviada por uma pessoa que se declarava decepcionada comigo em função de uma história contada por mim em uma palestra recente. A história em questão não tem nada de original - é nada mais nada menos do que uma dessas situações corriqueiras que todos nós vivemos com muita freqüência e que começou, no meu caso, quando decidi procurar um redator ou redatora para trabalhar comigo.

Durante uma das entrevistas, a candidata mais forte acabou confessando: "Leila, eu escrevo bem, estou apta para o cargo, mas o que eu quero mesmo é aprender com você, mudar minha vida e me tornar... palestrante!" Na mesma hora respondi que admirava a sua decisão, a orientaria no que fosse preciso, assim como fiz com outras pessoas, mas não a contrataria - afinal, estava procurando um redator, não um palestrante.

Para mim, a história parou aí - mas não para a pessoa que, entre tantas, me ouviu contá-la, não gostou do final e resolveu escrever, indagando: "por que você não quis ajudar a moça? Medo da concorrência?" Lembrei-me, imediatamente, do comentário ouvido dias antes, de um amigo a respeito de um conhecido: "O sucesso subiu à cabeça dele... Ele anda muito metido ! Só faz o que quer e só diz o que pensa!" Naquele momento não tive tempo de dizer o que eu, Leila, achava: feliz é a pessoa que faz o que quer e diz o que pensa, e esta postura não significa que é metido , mas, sim, que tem metas claras, alcançáveis - e transparentes! Agora, que isso incomoda aos outros mais do que vinte elefantes dentro de um fusquinha, num dia de calor, ah, incomoda!

E por que incomoda? Por que as pessoas metadas são vistas como egocêntricas, inconvenientes - falam tudo o que pensam, lembre-se! -, prepotentes, metidas ? Creio que porque elas abdicaram das mentiras e meias verdades, em favor da explicitação clara de suas idéias, vontades e propósitos. O que implica em dizer tranqüilamente " não" , " não quero" , " não vou" , " não faço ". Mais do que isso, as pessoas metadas são capazes de ouvir a mesma coisa sem se sentirem mal ou rejeitadas - compreendem e principalmente respeitam o sagrado direito dos outros dizerem não. No entanto, em um mundo que prefere a desculpa esfarrapada, mas gentil, a um não redondo, esta atitude agride muita gente.

Fatos como estes têm me levado a refletir sobre verdade, mentira, manipulação, máscaras, comprometimento, sim e não. Há quem acredite, por exemplo, que eu deveria ter dado alguma desculpa gentil para a moça que queria ser palestrante, impedindo que se sentisse rejeitada ou magoada. Afinal, este tipo de mentira é socialmente aceito e estimulado: desde a infância somos ensinados a omitir nossos pensamentos quando achamos que eles podem ofender ao outro. Mas com o tempo e a idade, acredito eu, este comportamento se cristaliza e a "mentirinha" (assim mesmo, no diminutivo, para não parecer tão má) transforma-se num curinga valioso que pode ser usado para salvar o jogo e "facilitar" o tão difícil relacionamento humano - ele vale o número máximo de pontos, mas é sinal flagrante de desrespeito à individualidade e à inteligência do outro.

O que a moça da minha história efetivamente ganharia com essa "mentirinha", fosse ela qual fosse? Quanto tempo dura o efeito da falsa gentileza, do sim mentiroso, da manipulação? Acredito que não mais do que alguns dias e quando ele acaba, o sentimento que predomina é de ter sido enganado - bem pior, não é?

Acredito, também, que seria altamente prejudicial para todas as partes - empregado e empregador - contratar alguém para realizar um trabalho que de fato não o interessa. A empresa moderna, assim como os gerentes de suas próprias carreiras, sabe claramente o que quer de cada membro da sua equipe e não tem condição, nem vontade, de manter "reservas" ou "estepes": precisa de pessoas únicas naquilo que fazem, inteiras, focadas, definidas, metadas.

Precisa que elas saibam o que querem, reconheçam seus limites, busquem superá-los, admitam que estão num processo contínuo de aprendizagem. E querem pessoas diferentes uma das outras, porque o diferente acrescenta, dá sabor, colorido - um mundo de iguais seria, no mínimo, chato e pouco produtivo. Melhor, o diferente não teme a concorrência: se somos únicos naquilo que fazemos, não temos com quem competir e respeitamos o outro, com suas particularidades, talentos, habilidades. Isto vale para as organizações, para você e, é claro, para mim. Neste jogo de cartas abertas, todos ganham.

Colunista do Vila Sucesso e Vila Equilíbrio, Leila Navarro é palestrante motivacional e comportamental, além de ser empresária e Presidente do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento do Capital Humano.

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