Luciana Mesquita: garra para atravessar o Canal da Mancha

Luciana Mesquita garra para atravessar o Canal da

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Tudo começou aos 11 anos. Mais precisamente nas férias de dezembro de 1983. Luciana Mesquita não tinha nem ideia do que viria a se tornar mas, sem querer, sua mãe a levou para o caminho do sucesso. "Minha mãe me colocou na natação porque eu e meu irmão caçula, Flávio, estávamos deixando-a louca! Fui para natação, piano e violão. Um ano depois, deixei o piano. O violão resistiu um pouco mais. Logo, a natação ocupou seu devido espaço em minha vida", conta.

Hoje, aos 37 anos, Luciana é administradora de empresas. Mas, mais que isso, é uma recordista de dar orgulho. Por incrível que pareça, a vida dela é igual à de muitos brasileiros. Durante a semana, passa o dia em conferências, grudada com seus inseparáveis laptop e celular e, aos finais de semana, não troca uma boa conversa e um café com os amigos.

A natação é apenas para "deixar os problemas na água, se acalmar e voltar para casa leve e feliz!", como ela mesma define. Mas nem por isso a dedicação é menor. O esporte conquistou-a de tal maneira que ela faz questão de ter um tempinho especialmente para ele. Pelo menos três vezes por semana Luciana sai do trabalho e cai na água. "Fui nadadora federada até os 18 anos. Hoje, não vejo a natação como profissão, mas como uma atividade que me dá prazer", diz.

Inspirada num nadador de fôlego, que foi da Inglaterra até a França a braçadas, Luciana quis saber qual era aquela sensação. E a maratona para realizar um sonho começou. Mesmo "fora de forma" pra enfrentar tal desafio, Luciana foi com a cara e a coragem. Inicialmente, começou com alguns treinos para entrar no antigo ritmo que, em algum lugar, havia se perdido. Aos poucos, foi se moldando, se policiando, até que, finalmente, falou do desejo de atravessar o Canal da Mancha ao técnico Cleyton Carregari.

"Meu técnico estava preparando o nadador Patrick Winkler para este desafio. De imediato pensei ‘eu também quero’, mas não disse nada. Pensariam que estava louca, já que estava voltando à academia e fora de forma. Com o passar do tempo e dos treinos verbalizei minha vontade e o Cleyton abraçou a ideia". Depois de milhares de quilômetros nadados e com a equipe formada, Luciana embarcou para a Inglaterra no dia 18 de julho deste ano.

Mas a rotina de treinos não foi fácil. A nadadora conseguiu se livrar de dez quilos, com a ajuda de um nutricionista. Nadou em represas, testou o frio, as correntezas, as incertezas. Até uma piscina de plástico foi comprada e recheada de gelo, para acostumar o corpo à baixa temperatura. Eram pelo menos 15 quilômetros de braçadas por dia!

O patrocínio para este desafio foi naturalmente conseguido. "Eu estava no aniversário de uma amiga que não encontrava há tempos e que me apresentava a todos como a amiga de infância que vai atravessar o Canal da Mancha. Um dos convidados brincou que eu deveria falar com a Duracell. Fizemos o contato, o projeto casou perfeitamente e a empresa me apoiou durante as duas travessias", diz.

Sim, duas. A primeira tentativa aconteceu em 31 de julho. Luciana estava se recuperando de uma gripe forte, mas as condições marítimas eram perfeitas. Não podiam esperar. A 00h30, ela começou a sua travessia e, por 4 horas, lutou bravamente. Até que o corpo disse chega. Dez quilômetros depois, a nadadora teve que parar por conta de sua condição física - ela sentia fortes dores de cabeça e dificuldades para respirar.

Mas ela não desistiu. "Sentia um vazio muito grande. Não dava para terminar daquela forma. Sem saber como seria enfrentar o Canal nas minhas melhores condições. Recuperei minhas forças, tomei novo fôlego para a segunda tentativa. Tinha poucos dias para conseguir um novo barco e montar uma nova equipe".

E foi com esse pique, sem desistir, que Luciana concretizou seu sonho, uma grande conquista: atravessou os 35 quilômetros de extensão do Canal da Macha - percurso que liga Dover (Inglaterra) a Calais (França) - em 11 horas, 44 minutos e 33 segundos, no dia 13 de agosto. Sem roupa de neoprene (aquela que protege o corpo contra as grandes variações de temperatura) e em águas medindo 14°C.

Não foi fácil superar uma combinação de fatores de risco que exigiam resistência e desempenho como variações de maré - que são grandes e geram correntes que mudam de direção a cada seis horas -, ventos fortes e cerca de 700 embarcações comerciais que cruzam diariamente o canal.


Depois de todo esse esforço, é claro que o resultado não poderia ser diferente. Luciana entrou para a história, como a sexta brasileira a fazer a travessia. "Sinto uma satisfação e felicidade enorme em fazer parte deste seleto grupo de nadadoras que atravessaram o Canal da Mancha e, hoje, entendo o significado desta conquista em nossas vidas, mas ainda não consigo traduzir." Com toda essa dedicação, é difícil imaginar que ela era como a maioria das pessoas comuns: pagava seis meses de academia e ia somente a três deles.

Por Tissiane Vicentin (MBPress)

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