Gessy Fonseca, a dama da voz

Gessy Fonseca a dama da voz

Foto: arquivo pessoal

Você pode não se lembrar de seu rosto, mas, certamente, conhece (muito) bem sua voz. Gessy Fonseca, "a dama da voz", é considerada a primeira dubladora brasileira e atuou como atriz de teatro e novela, dubladora, apresentadora e, por diversão, artesã. Com 87 anos recém-completados (com direito a festa no salão do prédio em que mora e homenagem), ela abre o leque de sua carreira para o Vila Sucesso.

Talvez esse acúmulo de funções tenha sido obra do tal do destino que, certo dia, apresentou sua voz ao mundo. Ela, seu pai e sua irmã, Daisy Fonseca, frequentavam a Rádio Record - e Gessy lembra exatamente o endereço da rádio na época: esquina da Rua Direita -, onde Otávio Gabus Mendes apresentava um programa de auditório.

"Uma noite o Otávio Gabus Mendes precisava de duas vozes de duas moças, então fomos eu e minha irmã. A gente fez uma provinha, ele gostou e no dia seguinte fizemos um teste de voz pra rádio", conta.

Em seguida, passaram pela Rádio Cruzeiro do Sul, Rádio Cosmos (que virou Rádio América), Emissoras Unidas, Rádio Difusora, Rádio São Paulo, Rádio Teatro Nápole e Rádio Bandeirantes - onde sua irmã conheceu Rebelo Jr, então diretor da rádio, e acabou se casando com ele, abandonando a carreira de atriz e migrando par o Jornalismo.

Aliás, a atriz tem boas lembranças da emissora de rádio. "Tinha um programa da Bandeirantes, ‘Cinema em seu lar’. Eram filmes radiofonizados lançados no ar pela rádio uma semana antes de irem para o cinema. Ficou de 47 a 56 na Bandeirantes", recorda.

Depois, enquanto passava férias em Campos do Jordão, foi chamada novamente à labuta: Floriano Pascal, então diretor da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, a chamou para trabalhar lá. "Era o máximo, como um ator. Era como trabalhar na [Rede] Globo hoje em dia, o ponto alto da carreira", contextualiza. Lá, foi interpretar Laura, a "mulher má da novela", em "Alma sem Deus".

"A novela era um sucesso, então, no dia seguinte, todo mundo comentava o capítulo. Um dia eu estava sentada no ônibus e tinham duas mulheres em pé na minha frente comentando sobre a novela. ‘Se eu pegar aquela Laura eu mato, esfolo!’, e fiquei quietinha", diverte-se, enfatizando que, por se tratar de uma rádio-novela, seu rosto não era conhecido pelo grande público.

Em 1958, quando voltou à Record, o Canal 7 de televisão já existia. Ali, Gessy interpretou Lola, na primeira versão de "Éramos Seis" - papel que rendeu o prêmio de Melhor Atriz, em 1962. Na televisão, ainda fez as novelas "Amor de Tormenta", "Alma de Carícia", a série infantil "Turma dos Sete", "Imitação da Vida", entre outros trabalhos. Na Rede Globo, em 1974, viveu Celeste, mãe de Regina Duarte, em "Fogo sobre Tela".

Em meio a tantos trabalhos, Gessy tem a sua queridinha. Em 1945, fez "A Mestiça", de Gilda de Abreu. O motivo? "A personagem tinha uma gargalhada marcante, disseram que eu sabia gargalhar muito bem."

Apesar dos inúmeros trabalhos como atriz de novelas e teatro, foi dublando que se tornou uma grande pioneira. Emprestou sua voz à atriz Eliane Lage, em "Caiçara" - o primeiro filme nacional dublado - dirigido por Adolfo Celi (o que a enche de orgulho).

Ao relatar seus grandes feitos, Gessy fez uma lista que parecia interminável: tirou foto com Monteiro Lobato e Cásper Líbero, ganhou Menção Honrosa no prêmio "Talentos da Maturidade", recebeu os prêmios "Roquete Pinto" e "Mais Bela Voz", foi a primeira Princesa do Rádio, ganhou placa no saguão do Theatro São Pedro, fez a Jane, em "Tarzan", a sensual Mulher Gato, na série "Batman", Tia May, em "Homem Aranha" (anos 90) e a terceira voz de Endora, em "A Feiticeira".

Ela também participou de vários curta-metragens e sua voz foi homenageada no Festival de Berlim. A artista expôs seus trabalhos de artesanato em feirinhas da República, Liberdade, Largo 13 de Maio e outros. E ainda ressalta: tem saudade da época das greves de sua classe e de movimentos de rua.

Não foram poucos os atos dessa pequena notável - de 1m50 de altura - em 70 anos de carreira. Mas não pense que ela está satisfeita. "O que eu te falei já deu bastante material, né?", dizia ela, enquanto eu engatilhava mais uma série de perguntas. Diante de minha insistência, a atriz narrou sua agenda - incomum para a idade em que esperamos que as senhoras descansem e cuidem de seus netinhos.


"Faço trabalho voluntário no Centro Cultural São Paulo, gravo livros para cegos. Faço com muito carinho, não gosto de faltar", explica. Depois, ainda, iria para a Vila Olímpia, fazer mais um trabalho de dublagem. Gessy Fonseca não para. Será esse o segredo de tanto bom humor, disposição e coragem?

Por Ana Paula de Araujo (MBPress)

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