Entrevista de emprego ou encenação?

Andei lendo alguns manuais que instruem sobre como candidatos a emprego devem se portar diante das entrevistas. O universo é extenso: abordam sobre os trajes, a pressão adequada ao apertar a mão do entrevistador, a forma de andar ao entrar na sala de entrevistas, as respostas mais adequadas para perguntas freqüentes, o corte de cabelo e até mesmo para revelar defeitos e pequenas imperfeições curriculares é preciso seguir um protocolo comportamental.

Em resumo, regras e mais regras para atingir o máximo da performance em um breve espaço de tempo, ocasião na qual, na minha opinião, tomam-se as mais importantes e arriscadas decisões em uma empresa. Todo um material repleto de conselhos e recomendações de especialistas e profissionais de recursos humanos, responsáveis pela árdua tarefa de selecionar e contratar pessoas.

Tomei então o cuidado de pesquisar sobre as orientações destinadas aos profissionais responsáveis pela condução de processos de seleção, onde observei uma série de aconselhamentos, que objetivam identificar o candidato cujo perfil oferece a melhor aderência diante da vaga. Ao final concluí: desde que atendidas as questões objetivas tais como formação e experiência comprovada, atores e atrizes não teriam nenhuma dificuldade.

Ao mesmo tempo, observo uma imensa instabilidade nas posições executivas, com mudanças constantes e repentinas, e vagas nas quais os ocupantes não conseguem permanecer por mais de um ano. Mas será que é disso que as empresas necessitam?

Fico imaginando uma entrevista típica, onde entrevistador e candidato munidos deste conhecimento, desenvolvem um diálogo idealizado, onde perfis e expectativas se encaixam perfeitamente. Ou quem sabe, perigosamente.

Aparentemente a aderência é total, o entrevistador encerra a entrevista satisfeito por ter encontrado o melhor candidato e este vai para casa feliz por ter conquistado o emprego dos seus sonhos. Mas há o perigo, porque diante de tanta encenação, é muito difícil que a realidade esteja presente. Certamente ela vai se impor, mais cedo ou mais tarde, trazendo grandes frustrações.

Na minha opinião há uma grande idealização pelo candidato perfeito nas empresas, com exigências improváveis e irreais. E é possível que o problema esteja aí. Impelidos pela competitividade vigente, pela saudável ambição de crescimento, os profissionais farão de tudo para corresponder aos perfis exigidos, e uma vez competentes na encenação diante de um selecionador com conceitos tão pré-determinados, serão contratados, para depois sofrerem as conseqüências de um dia-a-dia de trabalho enfadonho, repleto de cobranças insanas e pressões descabidas, ou quem sabe totalmente pertinentes, mas muito distantes de suas aspirações. E assim, todos perdem.


Por fim, penso que precisamos construir ambientes de trabalho e existências profissionais em bases mais reais e críveis. Com menos retóricas e expectativas olímpicas e mais consciência do que queremos e de nossas inevitáveis e humanas limitações. Seremos assim, bem mais felizes e realizados.

Gustavo Chierighini, atento observador do universo corporativo, é fundador e publisher da Plataforma Brasil, especializada em informações e conteúdos de inteligência empresarial. www.pbrasilnet.com.br

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