Editora especializada em literatura homossexual

Editora especializada em literatura homossexual

Laura Bacellar no lançamento do livro de Karina Dias

Ao enfrentarem juntas o preconceito, Laura Bacellar, 49 anos, e suas amigas, resolveram dividir as suas experiências e colocar no papel, ou melhor, nos livros, tudo em forma de ficção. Decidiram também arregaçar as mangas e inaugurar uma editora voltada especialmente para lésbicas, isso em novembro do ano passado. Trata-se da Malagueta, primeiro selo editorial da América do Sul especializado em publicações para o segmento, que reúne autoras do gênero já conhecidas da internet. Essas além de publicarem as suas obras impressas ainda promovem eventos a fim de levantar a questão das lésbicas no Brasil.

A frente da editora, que possui loja online, Laura sempre observou uma carência no mercado editorial para homossexuais, principalmente obras mais positivas e não carregadas de preconceito. Primeiro ela investiu no selo Edições GLS, do grupo Summus, mas ainda faltava algo específico para lésbicas. "Não há produtos culturais dirigidos para nós. Faltam livros, filmes, revistas, além de lojas, casas de chá, tudo o que você quiser imaginar. Eu sinto falta em especial de livros, por isso quisemos fazer algo a respeito".

Diferente dos romances antigos de literatura lésbica - o primeiro de que se tem notícia é da escritora Cassandra Rios, isso em 1970, cujas personagens eram pessoas amargas que sofriam de amores impossíveis - a editora prefere usar finais felizes, assim como o Julieta e Julieta, escrito pela mineira Fátima Mesquita, em 1999. Em entrevista ao Vila Sucesso, Laura conta as conquistas e dificuldades neste um ano de Malagueta.

Atualmente, o que vocês têm visto no mercado que divulga uma ideia falsa da cultura lésbica?

Não chega a ser uma imagem errada, é a completa invisibilidade. O que você conhece que é dirigido a lésbicas? Os empresários brasileiros estão dormindo no ponto. Já há festas e boates e bares dirigidos a lésbicas, há sites, livros independentes, e a Editora Malagueta, mas falta de tudo. Parece que as pessoas não acreditam na existência de mulheres homossexuais.

Antes do selo Edições GLS e da própria Malagueta, o que você já observou algum tipo de preconceito por parte das editoras?

Vou citar um exemplo de uma autora estrangeira que foi camufladíssima aqui, chega a ser engraçado. É sobre Sarah Waters, uma inglesa lésbica super assumida, com livros (de temática lésbica explícita) adaptados como séries para a BBC. No Brasil, o seu livro "Na ponta dos dedos" foi lançado pela editora Record. Não há uma menção sequer de que se trata de uma história de amor entre mulheres? Essa ausência de obras de nosso interesse, ou super infelizes, ou super escondidas nos irritou a ponto de pensarmos que a Editora Malagueta era necessária, apesar de a sociedade brasileira estar se mostrando cada vez mais aberta à diversidade sexual. E aparentemente estávamos certas, porque estamos tendo uma boa resposta de leitoras que tinham a mesma sensação do que nós.

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Como funciona a divulgação dos livros?

Divulgamos por email, também em eventos. Estamos criando um calendário de encontros sobre literatura lésbica em todo o país, participamos de comunidades virtuais e expomos em algumas livrarias simpatizantes. Ainda há muito a fazer, mas já estamos conseguindo ser conhecidas dentro da nossa comunidade.

Você sofreu alguma resistência no mercado por conta do assunto lésbico nos livros?

Sim, uma gráfica se recusou a imprimir e uma livraria evitou fazer um lançamento nosso. Fora que quase nenhuma livraria tem espaço para obras homossexuais, a Cultura e a pequena Bolívar, no Rio de Janeiro, são honrosas exceções.

Você acha que ainda falta muito a ser explorado sobre o mercado homossexual, na sua opinião é um bom negócio por conta disso?

O mercado cultural, em especial o de livros, é muito arriscado, você nunca sabe o que o público vai querer de fato, é imprevisível. E quando você acerta, nunca ganha os bilhões. Ainda assim, acredito que os empresários ganhariam em olhar com mais atenção. Acho que se trata mais de um segmento do que um nicho. Todas as empresas já atendem homossexuais, já lidam com eles, porém não sabem disso e em geral lidam mal com eles. Não parece uma decisão inteligente mudar isso?


Vocês também comercializam livros de outras editoras? Quais são as obras de destaque?

O primeiro foi As Guardiãs da Magia, de Lúcia Facco. Depois vieram Amores Cruzados, de Fátima Mesquita; e Shangrilá, de Marina Porteclis. O último foi Aqueles Dias Junto ao Mar, escrito por Karina Dias, popular na internet pelos seus romances, como "De repente é amor", "Simplesmente irresistível" e "Quando o amor acontece".

Por Juliana Lopes

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