De vendedora de porta em porta para proprietária de uma rede de consultórios

De vendedora de porta em porta para proprietária d

Foto: Arquivo Pessoal

Carla Sarni é fundadora e proprietária da maior rede de clínicas odontológicas da América Latina, a Sorridents. Atualmente, ela conta com cerca de 140 clínicas em funcionamento. E só continua crescendo, com novas franquias sendo implantadas.

No entanto, para chegar ao sucesso, esta verdadeira empreendedora lutou muito. Ela saiu da casa dos pais para cursar odontologia em outra cidade, vendendo roupas, bombons e água para se manter, e também abriu mão de um sonho, um carro que adquiriu por meio de um consórcio, para investir em algo que se tornou "o negócio de sua vida".

A seguir, a própria Carla conta sua história de esforço, persistência e muito trabalho. Confira toda a trajetória dessa mulher que ainda tem grandes planos para o futuro. Definitivamente, ela não para e sonha alto, estabelecendo grandes metas para a sua rede. Será que este é o segredo do sucesso?

Você é da cidade de Pitangueiras, no interior de São Paulo. Nesta época, a que tipo de trabalho se dedicava?

Eu vendia bijuteria de porta em porta e ajudava na loja de roupas da minha mãe.

Como surgiu a oportunidade de cursar odontologia em Minas Gerais?

Um dos meus primos estava tentando entrar no curso de Odontologia em Alfenas, MG, e me chamou para ir junto. Prestei o vestibular apenas para participar da festa dos calouros. Eu tinha 16 anos, então, nem pensava em ir para a faculdade ainda. Para a minha surpresa, passei e conversei com a minha mãe sobre a possibilidade ir para Alfenas.

Como conseguiu se manter em outra cidade e ainda ter condições de comprar todo o material para o curso?

Costumo dizer que só consegui por causa da minha veia vendedora. Eu vendia de tudo, por exemplo, roupas da loja da minha mãe, água durante as provas do vestibular e bombom de leite Ninho. Com isso, estudava durante o dia e a noite passava nas repúblicas vendendo coisas. Até os professores viraram meus clientes.

Como era seu dia a dia trabalhando e estudando?

A rotina era puxada. Para terminar o curso mais rápido, escolhi o período integral. Assim, estudava o dia todo e a noite ia trabalhar vendendo os produtos nas repúblicas. Além disso, nós tínhamos como atividade extracurricular atender a população carente da região e eu me apaixonei por esse trabalho, passando a fazer atendimentos aos finais de semana além do instituído pela faculdade.

Isso me deu base para criar os projetos sociais que temos hoje na rede Sorridents. Uma criança não escolhe onde vai nascer, nem com que bolso vai vir e muito menos filho de quem vai ser. E foi na faculdade que eu aprendi isso. Também adorava estar com as pessoas, pois era nessas visitas que eu aumentava o meu ciclo de amizade.

Depois de formada, você veio para São Paulo. Por que escolheu a capital paulista?

Eu sabia que para crescer teria que ir para uma metrópole, pois sempre penso grande. Como tinha um tio que morava na Aclimação, bairro de São Paulo, resolvi vir. Meu primeiro emprego na capital foi em um consultório simples na zona leste. Como via que o atendimento era precário, com o uso de material de qualidade duvidosa, preferi sair.

As coisas mudaram quando participei de um processo seletivo em um consultório na Vila Cisper, na zona leste. O dentista fez uma seleção e, após o final do processo seletivo, eu não havia sido escolhida, mas ainda assim acreditava que aquela vaga podia ser minha. Então, antes de sair eu disse: "se a pessoa que você selecionou não quiser a vaga, eu quero". E assim aconteceu, a dentista escolhida não apareceu e fiquei no lugar dela.

Apesar de modesto, este consultório tratava muito bem seus pacientes e eu me identifiquei. Passados três meses, eu tinha dobrado a carteira de clientes. O dentista me ofereceu o consultório e acabei comprando a minha própria carteira para pagar em 12 prestações. Aluguei outra sala, coloquei a cadeira que a minha avó pagou para mim durante a faculdade e convidei uma amiga para atender outra especialidade.

Você teve muitas negativas no início de carreira? Como você reagia?

Sim, o que é normal. Mas eu nunca desisti. Sempre acredito que, se não deu certo, não era para ser meu, uma vez que fiz tudo que estava ao meu alcance.

Como conseguiu montar seu primeiro consultório da Sorridents?

O consultório que tinha em cima da padaria na Vila Cisper foi crescendo e ganhando salas com especialistas. Quando não havia mais para onde crescer, surgiu a oportunidade de comprar um imóvel logo em frente. Nessa época, eu pagava um consórcio de um carro e fui contemplada. Fiquei muito feliz, finalmente havia conseguido comprar meu primeiro automóvel.

Mas, uma semana após pegar o carro, uma paciente minha colocou sua casa à venda, que ficava localizada na esquina do meu consultório. Vi que ali seria o lugar ideal para ter minha clínica e, então, pensei: "lá se foi meu carro". Como eu não tinha dinheiro, dei o carro de entrada e parcelei o restante a perder de vista. Assim, montei o conceito da Sorridents, uma clínica com qualidade de classe A para a classe C.

Como aconteceu a evolução da rede?

Quando montei a primeira clínica Sorridents e apliquei este modelo que eu acreditava ser o melhor para aquela população, convidei alguns colegas para trabalharem como parceiros especialistas de varias áreas, o que despertou a vontade deles em ter um negócio igual.

Foi assim que começamos a ser sócios em outras clínicas Sorridents. Quando chegamos a 23 unidades, achamos que era hora de parar de expandir. No entanto, os dentistas continuavam a nos pedir o licenciamento da marca e para manter a qualidade e a filosofia do negócio, decidimos nos tornar uma franquia.

Mas como surgiu a ideia da franquia?

Em 2004, meu marido fazia um curso de pós-graduação e conheceu o modelo de franchising. Então, contratamos uma assessoria especializada em definição de padrões e começamos a aplicar nas clínicas que já existiam.

Então, em 2005, lançamos a Sorridents Franchising LTD. Um grande diferencial da Sorridents é que quando viramos franquia, já tínhamos 10 anos de experiência com 23 unidades próprias e conhecíamos o modelo de negócio desenvolvido.

Você acredita que sempre foi uma pessoa empreendedora?

Acredito que já nasci com essa habilidade. Desde pequena eu costumava vender tudo que tinha em mãos. Por exemplo, ainda criança, quando minha mãe comprou uma pequena loja de roupa, um dos itens era uma caixa de carretéis de linha, que para ela não tinha muito sentido estar ali. Perguntei se poderia ficar com aquelas linhas e ela deixou. Não tive dúvidas, peguei uma bacia, coloquei todos os carretéis dentro e fui para a calçada em frente a um banco e gritava: "venha, venha freguesia". Deu certo, vendi todos os carretéis de linha e comprei minha primeira bicicleta.


Do que você abriu mão para ser uma empreendedora de sucesso?

Eu abri mão de ter salário e horário fixos. Ainda hoje costumo trabalhar em torno de 17 horas por dia, quando não aos finais de semana.

Hoje, como é seu dia a dia?

Bastante corrido. Tenho uma agenda bem extensa que normalmente é das 8h às 20h. Depois de sair do trabalho, vou para a segunda jornada em casa. Tenho dois filhos pequenos e costumo jantar com eles, olhar as lições e colocá-los para dormir.

Um dia da semana tiro para fazer palestras e visitar unidades da Sorridents. Também tenho um dia da minha agenda que fica aberto para receber os franqueados ou pessoas que queiram conversar comigo. Os demais são voltados para reuniões internas.

Quais são seus planos para o futuro?

Quero tornar a Sorridents referência nacional em odontologia de qualidade até 2016.

Fernanda Oliveira (MBPress)

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