Conheça a rotina de uma dubladora

Conheça a rotina de uma dubladora

Você já parou pra pensar na voz por trás de todos os desenhos e seriados que você assistia durante a infância? E os filmes que assiste no cinema atualmente, quem está dublando as falas dos seus artistas preferidos? É isso que vamos te contar agora! O dia a dia de um dublador, as preparações necessárias, as dificuldades e como eles conseguem atingir, muitas vezes, a perfeição.

Conversamos com Tania Gaidarj, dubladora desde 1992, consagrada na cena de dublagens nacionais, que trabalha hoje em dia no Clube da Voz. Tania dublou Alicia Silverstone em "As Patricinhas de Beverly Hills", a secretária ruivinha (Emily) em "O Diabo Veste Prada", várias participações na série "Anos Incríveis" e muitos outros personagens.

Porém, o destaque vai para suas personagens em animes (desenhos japoneses): "Não que eu goste mais de fazê-los, mas a partir deles fiquei conhecida pelos fãs da cultura japonesa, que me dão muito carinho e reconhecimento. Minhas principais personagens de anime são a Bulma, de ‘Dragon Ball’ e Chun Li, de ‘Street Fighter’", conta a dubladora.

Para preparar a voz antes das gravações, Tania conta que não faz nada de especial: "Só não me separo da minha garrafinha de água sem gelo (inclusive na hora de gravar) e obviamente não fumo. Uma fonoaudióloga me deu uma lista de exercícios de ‘aquecimento’ ótimos, mas os faço muito raramente". Também conta que evita beber gelado e locais com fumaça: "Chego a perder a voz totalmente devido à fumaça de cigarro".

Sobre a escolha das vozes para cada personagem ela revela: "O timbre nunca é exatamente igual, pois isso é único de cada pessoa. Mas a função de quem escala os dubladores para uma produção é tentar encontrar timbres e outras características de voz semelhantes à original".

Apesar de quase sempre fazer as boazinhas de voz doce, sua preferência é dublar as malvadas, com voz mais forte e ainda conta mais: "Adoro cenas de choro, porque posso improvisar bastante e o mais legal é respirar junto com a personagem para voz e o choro saírem o mais próximos do original. Se a pessoa está chorando de costas, por exemplo, dá para sacar a respiração pelo movimento dos ombros. E aí é só seguir esse ritmo".

Até 2005, Tania dublava muito e nem fazia aquecimento vocal por trabalhar em mais de um estúdio por dia: "O trabalho é por hora. Não há ensaio. Você vê a cena uma vez, depois vê novamente e pode ir lendo baixinho enquanto ouve a voz original na tela ou no fone de ouvido e aí já grava, sempre tentando chegar o mais próximo possível do original".

Vale lembrar que para uma perfeita dublagem, todas as expressões e o ritmo da respiração devem ser imitados e acompanhados na hora da fala, e isso pode parecer tarefa fácil, mas exige muito cuidado: "É delicado demais porque os microfones são muito sensíveis e captam todo e qualquer ruído que se produza na frente deles. Então, às vezes o personagem está pulando ou correndo e não podemos nos mexer tanto para não fazer barulho". Porém, Tania confessa que é muito difícil dublar totalmente imóvel e confessa que se mexe bastante quando a cena exige. "Outra coisa são as caretas e feições que, sem querer fazemos junto com o que vemos na tela", explica a dubladora.

Mesmo com tanta dedicação neste trabalho, o que mais vemos são pessoas criticando filmes dublados. Uns reclamam da artificialidade da voz, outros que preferem aprender com a língua original. Tania opina da seguinte forma: "Acho importante haver a possibilidade de escolha para que cada um assista a um filme ou desenho da maneira que preferir. Se a pessoa quer ouvir a voz verdadeira de cada ator, até mesmo para aprender ou aperfeiçoar seu conhecimento em outros idiomas, acho ótimo", diz.

E declara: "Não podemos no esquecer de que todos, quando crianças, assistíamos a nossos desenhos, séries e filmes favoritos dublados e apenas dublados. E assistir a esses mesmos desenhos e séries hoje com o som original nos parece terrivelmente falso. Então é tudo uma questão de referência, além da preferência. Dizer que dublagem é ruim apenas pelo preconceito não faz sentido".


E com toda essa carreira de sucesso e experiência, Tania continua esse trabalho, que realiza com tanto profissionalismo. A história dela é apenas uma peça deste tabuleiro de xadrez que não tem o reconhecimento devido. Agora que já sabemos todos os perrengues que esses artistas passam, podemos muito bem na próxima ida ao cinema pedir a opção dublada e apreciar a voz destes brasileiros!

Por Alessandra Vespa (MBPress)

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