Combate ao stress pode levar ao stress

Li em uma reportagem que 70% dos executivos altamente qualificados sofrem de stress patológico. A doença contemporânea, que avança pelas divisórias dos escritórios e salas de reuniões não poupa ninguém, atingindo homens e mulheres em todas as faixas etárias. O primeiro pensamento que me veio foi "é a pura verdade", afinal observo isso todos os dias. Em seguida, a reportagem avançou pela seara das inúmeras soluções que algumas cuidadosas empresas estão implementando para atenuar ou quem sabe debelar o problema nas suas fileiras.

Vale de tudo: grupos de canto, exercícios físicos na academia corporativa, terapias em grupo, saídas programadas ao final do expediente, etc, etc. Ao final da reportagem, profissionais responsáveis pela implementação dos programas anti-stress relatavam como fizeram para que tais dispositivos entrassem definitivamente na agenda de executivos e executivas. Em geral, a forma encontrada foi: a assiduidade aos programas passou a fazer parte da avaliação de desempenho.

Ou seja, não basta a rigorosa e temida avaliação abordando fatos comportamentais e objetivos do dia-a-dia, agora também são avaliados sobre a sua disciplina aos programas de contenção ao stress. Qual é o resultado? Mais stress.

O quadro é desolador. Executivos que odeiam cantar, cantando numa sala fechada, e claro, olhando o relógio ansiosos para irem embora e finalmente descansar em casa. Em paz. Executivas que não suportam academias de ginástica, malhando, pulando vez ou outra uma série de exercícios, na tentativa de abreviar o sofrimento. Outros sentados em mesas de barzinhos, participando de mais uma saída programada para "relaxar", quando na verdade gostariam de usar o pouco tempo disponível para estar com a família ou com a amiga de faculdade que nunca consegue encontrar devido ao excesso de compromissos.

O fato é que não existem soluções padronizadas para combater esse mal, e aquilo que funciona perfeitamente para algumas pessoas, é totalmente ineficiente e enfadonho para outras. Tom Jobim afirmava que só conseguia descansar de verdade quando estava no centro de Manhattan.

Mas em se tratando do ambiente de trabalho, algumas táticas podem ser de utilidade comum. O gerenciamento de conflitos internos, por meio de regras claras de concorrência, com transparência no planejamento de carreiras pode ser um fator decisivo para aliviar o stress emocional associado ao trabalho. Ajuda muito, o cultivo de uma cultura organizacional, com combate a deslealdade e ao desrespeito nas relações. Regras claras, o mínimo de bom senso, estabilidade e compreensão, e um pouco mais de autoconfiança por parte dos "líderes", podem trazer resultados surpreendentes para a melhoria do clima interno e elevação da qualidade de vida no escritório.

Fala-se muito na retenção de talentos, e as empresas querem profissionais qualificados, com postura inovadora, criativa e empreendedora. Que tragam mais soluções que problemas, que sejam independentes e responsáveis na conduta. Muito bem, buscar gente assim é muito legítimo, mas esse perfil também trás as suas particularidades. Essas pessoas precisam navegar em ambientes politicamente seguros e estáveis, não querem se sentir monitoradas e controladas o tempo todo. Querem ser donas do seu tempo livre e da sua consciência. Querem gerir e encontrar as próprias soluções para os seus problemas. Querem liberdade e sentir prazer com o trabalho.

Contratações são operações de alto risco. Quando dá certo, deve ser motivo de comemoração. Depois da comemoração é preciso cultivar.


Vamos transformar o ambiente de trabalho num local de prazer e realização. Deixemos o teatro e o ringue para os finais de semana, acompanhados de quem quisermos.

Gustavo Chierighini, atento observador do universo corporativo, é fundador e publisher da Plataforma Brasil, especializada em informações e conteúdos de inteligência empresarial. www.pbrasilnet.com.br

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