As sereias do futebol

As sereias do futebol

Marta. Foto: Maurício de Souza

Nunca como agora o futebol feminino brasileiro teve tanta atenção. Com uma conquista boa atrás da outra, clubes desviam os olhos dos meninos e, finalmente, olham para elas com o merecido respeito. Aqui no Brasil, o Santos Futebol Clube tem investido em infraestrutura, contratações de peso e dado a elas a chance de mostrar o talento. Com todo charme.

Campeãs invictas da I Copa Libertadores da América de Futebol Feminino, as "Sereias" - como são conhecidas as jogadoras do Santos - estão nas mãos do mesmo técnico que comanda a seleção brasileira, Kleiton Lima. No time, as egressas da escolinha do clube, por exemplo, tem chance de dividir o campo com jogadoras de peso como Marta e Cristiane - duas das melhores do mundo.

Kleiton espera que a investida do time santista na categoria ajude outros grandes clubes a também abrir os olhos para esse esporte potencial. "Vivemos um momento nobre no futebol feminino. O Santos foi pioneiro e é preciso que outros times de tradição deem espaço e estrutura. Apenas assim é possível gerar mais visibilidade e consequente patrocínio para os times. É preciso criar, aqui no Brasil, possibilidades para as nossas jogadoras, para que os talentos não precisem deixar o país", pondera.

Ele já treinou equipes masculinas, mas trabalha desde 1997 na categoria dentro do Santos e assumiu a seleção em janeiro deste ano. Isso significa que tem experiência de sobra quando o assunto são as mulheres do futebol. "O esporte é o mesmo e essencialmente não há diferença", explica. "O que difere mesmo é a parte física. A intensidade aplicada nos treinos deve ser voltada para o corpo da mulher e é necessário estar consciente de que há restrições".

Fora isso, é preciso ser um gênio da psicologia, claro. Diferentemente dos homens, as mulheres são mais emotivas e normalmente levam para o treino - e até para o campo - os problemas e aflições de fora. São mais sensíveis, dividem mais as angústias e podem transformar um medo pessoal em coletivo. É nessa hora que entra o técnico, fazendo papel de amigo, irmão mais velho e até pai. "É preciso saber lidar para ajudar não perder o rendimento, saber quando é preciso dar dura ou elogiar e até tolerar TPM", fala o técnico.

Com a sabedoria necessária para lidar com esse sexo (nada) frágil, Kleiton treina meninas como Anna Carolina Rozza Schmidt, de apenas 15 anos. Ela começou a jogar aos 11, em Piracicaba, mudou para Santos quando a mãe trocou de emprego e entrou na escolinha do time da cidade nova. Estava no lugar certo, na hora certa e, na metade desse ano, entrou para a equipe profissional feminina do Peixe. Divide com outras 48 meninas o sonho de jogar pelo time e, quem sabe, pela seleção (hoje, das 24 convocadas para representar o Brasil, 9 são do Santos).

[galeria]

Anna leva uma vida normal quando não está treinando. Faz inglês, vai para o colégio e para a academia. Gosta de se divertir com os amigos e confessa que o futebol era hobby - mas virou projeto de vida. "É difícil conquistar uma vaga, tem muita menina boa no Santos. Mas eu prefiro ser ‘reserva da reserva aqui’, do que titular em outro clube. Hoje me sinto privilegiada por jogar na Vila", afirma, com a sensatez de gente grande.

Outra que também está sob o comando de Kleiton é Thaís Duarte Guedes, de apenas 16 anos. Veterana - joga futebol há 10 - ela já defendeu a seleção brasileira ‘Sub 17’, quando tinha apenas 13! Está no Santos desde o início do ano e já sabe o que quer da vida: levar o futebol como profissão. Mas a menina não deixa de estudar e, consciente, sabe que a carreira de atleta não é eterna.

Thaisinha, como é chamada pelos amigos, jogava com os meninos, quando começou - não existiam times e escolinhas femininas na época. "Alguns era bem bobos e não queriam dividir o campo com uma menina. Mas, depois que o tempo passava, eles percebiam que jogava de igual para igual", conta. "Hoje, é difícil escutar esse tipo de coisa. Nosso futebol está muito mais valorizado. No Santos, a vinda da Marta e da Cristiane melhorou muito nossa imagem. E nossas vitórias provam que damos conta do recado", completa. O sonho de jogar com essas duas referências do futebol feminino, Thaisinha já realizou, com a camisa das "Sereias". Agora, não esconde o sonho maior de defender a seleção principal, com a amarelinha, ao lado delas.

Ações voltadas às torcedoras

O time bem treinado e super competitivo do Santos conta com um incentivo sem precedentes na categoria, incluindo ações de marketing e promoções voltadas às torcedoras. A intenção é ampliar em 80% a linha de produtos oficiais para elas nos próximos seis meses. Hoje, por exemplo, as camisas do Santos são vendidas com os nomes das jogadoras, coisa que não acontecia antes. Desde agosto, mais de 3 mil personalizadas foram vendidas.

A partir de dezembro, mais uma novidade para as fãs do time. O departamento de marketing do clube, por meio da área de licenciamentos, lançou uma coleção de bolsas e acessórios, com 12 produtos exclusivamente femininos. As bolsas super charmosas foram confeccionadas em diversos tecidos, nas cores preto, branco e amarelo, e podem ser compradas na loja oficial do clube, na Vila Belmiro, e nas licenciadas, na "Sempre Santos" (www.sempresantos.com.br), em outros sites de compras e também em estabelecimentos especializados em produtos esportivos e femininos. Os preços vão de R$ 15 a R$ 90.


Os bons resultados das "Sereias", geralmente marcados por goleadas geniais, motivaram até o aumento na frequência de público feminino em jogos do Santos. Hoje, a estimativa é de que 25% dos torcedores presentes nas partidas em casa são mulheres.

As "Sereias da Vila" agora brigam pelo bicampeonato da Copa do Brasil. E devem ir com tudo para o I Mundial de Futebol Feminino, em 2010. Ele será sediado em Santos, claro!

Por Sabrina Passos (MBPress)

Comente