As mulheres de papel

As mulheres de papel

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Quando você folheia as revistas femininas, se enxerga nelas? A maioria das mulheres, não. A representação feminina nas páginas dessas publicações foi o objeto de estudo da jornalista Dulcília Buitoni - e acabou virando um livro: "Mulher de papel" (Summus Editorial, 2009).

O que Dulcília fez foi mostrar a ideologia transmitida por meio das revistas e analisar como a imprensa difundiu conteúdos que influenciaram na formação da mulher brasileira. Ela se questionou como a mídia mostra as mulheres, em diferentes idades, e descobriu que a imagem das mulheres é refletida segundo as conveniências da sociedade.

Está é a segunda edição do livro, publicado pela primeira vez há 30 anos, e ganha mais dois capítulos para completar a linha do tempo. Ao todo, foram 9 anos pesquisando sobre o tema. A obra aborda desde a mocinha pouco alfabetizada de 1880 até a celebridade siliconada de hoje, mostrando como meninas, jovens e adultas estiveram e estão sob a influência da mídia impressa especializada. "Passadas algumas décadas, continuo a procurar mulheres de verdade nas revistas femininas, embora saiba que publicidade e consumo lidam principalmente com mitologias", revela.

A obra dela, que hoje é professora da Cásper Libero, em São Paulo, prova que a mulher ainda tem muito que fazer para deixar de ser representação e virar realidade. A reprodução de páginas e capas de algumas revistas permite visualizar as transformações na construção dos modelos de mulher. Entre as representações de cada época, Dulcília definiu, por exemplo, a "mulher-celuloide", símbolo do processo de americanização durante a Segunda Guerra Mundial; a "dona de casa insatisfeita", que sofre a febre consumista dos anos do desenvolvimento; a "liberada" e a "marginal", orientadas para a fruição do sexo e da libido aquisitiva ou para a participação nos grupos e nos movimentos políticos; e, enfim, a "segura e sexy", que é voltada para o consumo e o culto às celebridades, quando o corpo assume o posto de elemento essencial na construção da imagem das pessoas.

O livro compõe um imenso mosaico da imprensa feminina e ainda descreve a "armadilha linguística" pela qual às leitoras são aliciadas no intuito de consumir. Em entrevista ao Vila Sucesso, a Dulcília explica o que é essa armadilha e indica publicações que conseguem fugir do lugar comum. Além disso, dá a dica: "é preciso desenvolver uma consciência crítica em relação a padrões que são impostos".

Depois da sua longa pesquisa, existe mulher de verdade nas revistas femininas?

Existe muito pouca mulher de verdade. Por exemplo, até o final da década de 1970, o padrão era a mulher branca, de classe média. Negras, indígenas, orientais e mestiças praticamente não apareciam. E a mulher das revistas aparece sempre relacionada à moda, beleza, sexo, amor - não que esses assuntos não sejam importantes - e muito pouco como cidadã e dona da sua vida.

Em que medida jornais e revistas difundiram conteúdos que acabaram por modelar a consciência da mulher brasileira?

Desde o século XIX, revistas femininas já faziam a cabeça das mulheres. Ao tratarem de temas ligados à intimidade e à vida cotidiana, quase sempre interferem mais nas decisões que a mulher vai tomar do que as matérias de um grande jornal ou de revistas de informação. Uma matéria sobre regime ou comportamento pode influir diretamente na vida da mulher. Hoje, junto com a televisão, as revistas femininas são as grandes construtoras de imagens femininas.

O que é "armadilha linguística" usada nessas publicações analisadas?

A armadilha linguística é o uso do imperativo - modo também predominante na linguagem publicitária. As revistas femininas, mais do que as outras publicações, utilizam o "use", "faça", "compre", "curta", "experimente", "mude", "emagreça" etc. Existe uma condição psicológica até, em que aceitamos sem discutir uma ordem, porque muitas vezes ela é um chamado de atenção. A primeira reação ao ouvir "Cuidado!" ou "Pare!" é de aceitar. A não ser que seja uma ordem perversa, dificilmente questionaremos a frase. Já uma frase meramente declarativa como "60 pessoas foram afetadas pelas inundações" pode receber a versão negativa ou dubitativa com muita facilidade.

Você acha que as mulheres não deveriam ler essas revistas - ou apenas estar cientes de que conteúdo é uma representação da realidade?

Não é uma questão de não ler - afinal, elas fazem parte do mecanismo da sociedade capitalista. É muito prazeroso folhear uma bela revista de moda ou decoração. No entanto, é preciso desenvolver uma consciência crítica em relação a padrões que são impostos. Um exemplo é a aceitação, praticamente sem nenhuma crítica, da "reforma" do corpo pela cirurgia plástica. Outro problema é a pouca discussão política que existe nessas revistas. Não podemos esquecer que revistas altamente rentáveis da Europa e dos Estados Unidos conseguem discutir questões políticas e sociais. Uma revista como a "TPM" consegue escapar de muitas armadilhas e discutir problemas importantes, além de trazer enfoques inovadores.


Como você acha que a mulher deveria ser representada? Alguma publicação chamou mais atenção pela boa ou má representação da mulher? Lembra de um caso que possa servir de exemplo?

A grande diversidade da mulher brasileira precisava ser representada, assim como as características culturais de cada região. Penso que revistas bastante comerciais poderiam conter conteúdos críticos; por outro lado, há espaço para revistas de militância, que infelizmente não conseguem se firmar. Um belo exemplo foi o jornal Mulherio, uma publicação alternativa dos anos 1970. A atuação da psicóloga Carmen da Silva, na revista "Claudia", por mais de quinze anos, a partir de 1961, fez a cabeça de toda uma geração. A revista internacional "Colors", que não é feminina, é uma excelente experimentação de discurso visual com grande conteúdo político e crítico.

Por Sabrina Passos (MBPress)

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