Aline de Lima - do Maranhão para as páginas do jornal "Le Monde"

Aline de Lima  voz que conquistou Paris

Foto: Divulgação

Ainda pouco conhecido em terras brasileiras, a cantora maranhense Aline de Lima ganhou destaque no jornal Le Monde, da França, país onde reside há 13 anos. Seu terceiro CD, "Marítima", foi produzido com muito suor. Diante da crise fonográfica mundial, a moça de 32 anos, nascida em Caxias (MA), criou seu próprio selo e desenvolveu sozinha seu novo disco.

Inicialmente, Aline de Lima foi para a Europa estudar Design, mas a música falou mais alto. As composições da maranhense trazem fortes referências brasileiras, com poesias embaladas por bossa nova, ritmos nordestinos e samba. Os outros dois CDs da artista, "Arrebol" (2006), produzido por Vinicius Cantuaria, e "Açaí" (2008), co-produzido por ela e pelo japonês Jun Miyake, seguem a mesma linha. Mas o novo CD tem um toque especial e, como o próprio periódico divulga, é um modelo inovador para resistir à crise fonográfica mundial.

"Criei meu próprio selo. Com doze músicos profissionais sob minha responsabilidade, gravei instrumento por instrumento e as vozes, fiz meus arranjos, toquei e editei. Foram seis meses de trabalho concentrado, viajando entre Paris, Rio de Janeiro e Maranhão com meu estúdio ‘no bolso’", conta.

Aline conversou com o Vila Mulher e contou um pouco sobre sua trajetória e sobre seus planos de fazer uma turnê no Brasil em 2012. "Quero dar o melhor para o público brasileiro, talvez o público mais afinado e musical do mundo todo", elogia.

Como se deu o processo de gravação de "Marítima"?

Eram doze músicos profissionais sob minha responsabilidade. Gravei instrumento por instrumento, as vozes, fiz meus arranjos, toquei, editei, busquei minha identidade. Foram seis meses de trabalho concentrado, viajando entre Paris, Rio de Janeiro e Maranhão com meu estúdio "no bolso". Uma Mbox de 2005, um laptop de oito aninhos de vida e um microfone de estúdio, cópia chinesa de grandes marcas (risos). É algo que os profissionais não ousam fazer. Isso implicaria numa outra crise... Mas como nem todos os artistas têm ou não querem ter consciência das possibilidades tecnológicas que temos hoje, os produtores, engenheiros e estúdios de gravação têm seus empregos garantidos, ainda por um bom tempo. Sem falar que é um trabalhão, e só quem é viciado nisso o realiza. Eu adoro!

O Le Monde comentou que seu terceiro disco é um modelo inovador para resistir à crise fonográfica mundial. E você gravou um CD e vendeu muitas cópias dos trabalhos anteriores num período em que é mais fácil para muita gente correr até o computador e baixar as canções. Como você avalia esse momento vivido pelos artistas e pela música?

O Le Monde quis, através do meu projeto, estimular os artistas que ficaram sem gravadora. Ficaram entusiasmados com minha ousadia em sair gravando eu mesma o disco, como se fosse uma "reporter do som". E fazendo um trabalho de extrema delicadeza e qualidade, no nível das grandes gravadoras. Isso é graças à tecnologia, e também à minha própria teimosia... (risos). O fato de as pessoas comprarem ou não música em formato digital ou em CD é relativo. Um bom trabalho de conscientização é necessário. A gente não tem que ser contra a pirataria, mas a favor dos artistas que se desdobram como podem para garantir esse alimento tão importante para a alma, que é a música. Hoje não se vende discos, valorizam-se os talentos. Essa é a real ruptura com o mercado de massa. Hoje o fã é quem manda. A grande preocupação de todos atualmente na Europa é de não deixar "a peteca cair", ou seja, temos que manter a criação musical, custe o que custar.

Qual é o seu grau de reconhecimento aqui no Brasil? Você acha que se tivesse começado sua carreira aqui teria a mesma visibilidade que tem hoje na França, por exemplo?

O reconhecimento era nulo no Brasil até o surgimento do Facebook (risos). Se tivesse começado minha carreira aqui, certamente as coisas teriam evoluído de outro modo. Quem sabe teria me tornado a grande sensação do forró (sério, eu amo forró!). Teria provavelmente sentido o apelo da vocação e lutado para isso no Brasil mesmo, conquistando mais ou menos o que tenho conquistado na Europa. Porém, esse apelo da música não viria com a tarefa de buscar em outras culturas o amor e o respeito que a gente tem perdido pelo nosso legado musical e a vontade de enriquecê-lo, mesmo modestamente. Não sou purista, muito pelo contrário. Mas, nesse mundo de globalização, é melhor não se perder.

Quais artifícios você usou para se manter na Europa sem perder o vínculo com a música brasileira?

Por incrível que pareça, aprendi mais sobre música brasileira em Paris do que no Brasil. Vi os shows e cheguei a encontrar meus grandes ídolos aqui. Além disso, tive acesso direto às fontes riquíssimas sobre MPB (livros, vinis e CDs antigos, coletâneas, trabalho de artistas emergentes e tudo que diz respeito ao seu histórico). Estudei vários estilos para entender as divisões (samba, musica nordestina, bossa nova, MPB, etc.), sentir a rítmica, as harmonias, as entonações e a vida dos artistas que construíram a reputação da nossa musica. A música brasileira é um oceano gigantesco. Foi como se estivesse mergulhando profundamente em suas raízes.

Seus discos foram bem recebidos na França. Por quais motivos você acha que suas músicas de toques tão marcantes fazem sucesso lá?

Esse é o lado bom da ótima reputação da música brasileira. Ela e seus autores merecem essa atenção, esse carinho da parte de quem é ou quer seguir carreira de artista. Isso só fez aumentar ainda mais minha admiração pela nossa cultura musical. A partir daí, eu consegui construir um dos alicerces do meu trabalho, e até mesmo da pessoa que sou hoje. Penso que porque sou muito franca e verdadeira no que faço, boto fé no meu trabalho. O Maranhão me deu um jeitinho muito simples e natural de ser, que cultivo, não unicamente por questões de raízes, mas por questões puramente humanas. E eu me interesso pela cultura deles, e de vários outros países. A Europa me ensinou a me interessar pelo outro. Isso é vital em qualquer área.

É mais fácil atrair o público cantando em sua língua nativa ou local?

Acho que a música não tem barreiras linguísticas. Cantei em sueco, inglês e em francês para brasileiros e eles ficaram tão encantados quanto nos momentos em que eu canto em português e criolo cabo-verdiano para os europeus, canadenses, norte-africanos. A música é um sentimento universal.

Em 2012 você pretende fazer uma turnê por aqui, não é? Quando isso deve acontecer?

Fiz três shows no nordeste no ano passado (Fortaleza e São Luís). Mesmo desconhecida do público, eu cantei minhas músicas com uma felicidade imensa. Essa reaproximação com meu País é tudo. É o meu sucesso particular. O que vier é lucro. Quanto à temporada de 2012, estamos conjugando as possibilidades com entusiasmo e perseverança. Quero cantar para quem quiser me ouvir, vamos trabalhar onde for possível, fazendo o mesmo que fiz no exterior, construindo. A França está me dando esse suporte. Ganhei uma bolsa na melhor escola de canto de Paris, serão cinco meses estudando técnica, trabalhando oito horas por dia para desenvolver o show acústico "Marítima", os arranjos, as interpretações ao violão, um trabalho exclusivamente dedicado ao meu projeto de shows. Um luxo que nunca tive. Quero dar o melhor para o público brasileiro, talvez o público mais afinado e musical do mundo todo.

O começo de tudo

Como surgiu seu desejo de ser cantora?

Essa decisão veio do fato de eu compor. Acho que é algo que nasce com a gente. Nunca tive nenhuma vaidade por isso. É um processo muito natural e fluido. Componho desde os 14 anos, mas apenas pelo prazer de "descobrir" algo novo a cada melodia e a cada letra que surge. Essa coisa de composição foi a gênese de todo esse percurso. Canto profissionalmente desde 2006 e como semiprofissional desde 2003. Mas ainda tenho muito o que aprender pra me tornar uma cantora de verdade.

O que fez você sair do Brasil? Quando isso aconteceu?

Eu tinha um namorado sueco, ele foi meu "passaporte" para o mundo antes mesmo da internet estourar, em 1997. Eu tinha 18-19 anos. Na verdade, sempre fui extremamente curiosa, e a vida fora do Brasil me deu essa certeza, embora nunca tivesse sequer sonhado em sair daqui. Intuitivamente, fui seguindo o que era meu destino. Eu tinha organizado tudo para viver em Curitiba, depois de uma viagem com minha turma de Desenho Industrial de São Luís. Mas os suecos me deram essa oportunidade e eu agarrei.

A mudança de carreira foi um processo natural?

A vida é uma escola mesmo. Eu fiz de tudo para me tornar uma designer do novo milênio (risos), fui até à Suécia pra isso. Mas um punhado de canções singelas mudou tudo. A partir do momento que eu decidi seguir esse caminho, tudo fluiu e minhas raízes estão intactas, mesmo tendo cantado em dez países, como estreante. É como se a música tivesse me escolhido, para um "sacerdocio" que não tenho como fugir, nem quero.


Quais dificuldades você enfrentou para gravar seus discos na França?

Gravei meus dois primeiros discos na mais prestigiada gravadora independente da França, a Naïve. Trabalhei com Vinicius Cantuaria, produtor do meu primeiro trabalho, em Nova Iorque. De repente me vi envolvida com artistas de vanguarda (Marc Ribot, Jun Miyake, Arto Lindsay, Bill Friesel...), enfim, a turma do Vinicius foi meu ponto de partida, de maneira direta e indireta. São verdadeiros aventureiros do som. E eu me identifiquei com essa energia. Um sonho real.

Por Juliana Falcão (MBPress)

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