Vítimas de erros médicos

Vítimas de erros médicos

Muitas pessoas no Brasil e no mundo sofrem devido aos erros em cirurgias e procedimentos hospitalares cometidos por alguns profissionais. No país, o número de denúncias de erros médicos registradas no ano de 2011 aumentou 52,10% em comparação ao mesmo período de 2010, de acordo com dados do Superior Tribunal de Justiça (STF). Ou seja, os registros subiram de 261 para 397.

Já em 2012, apenas nesses primeiros meses do ano, os processos somam 254 registros de erros que foram cometidos não apenas por médicos, mas também enfermeiros e auxiliares de enfermagem.

O erro médico é definido quando há uma falha do médico no exercício de sua profissão, portanto é um mau resultado decorrente da ação ou omissão do profissional de saúde. Esses erros causados nos pacientes deixam cicatrizes não apenas no corpo, mas na alma. As pessoas que passam por um procedimento que não teve resultados benéficos para o seu corpo sofrem com baixa autoestima, depressão e sentem vergonha de si mesmas.

Para lutar e garantir os direitos de muitos cidadãos que passaram ou ainda passam por uma situação de sofrimento devido a falhas médicas, a advogada Célia Destri, junto com outros advogados, fundou em 08 de janeiro de 1991 a associação AVERMES (Associação das Vítimas de Erros Médicos), no Rio de Janeiro.

Célia explica que a ideia de fundar a associação nasceu depois que ela foi submetida a um procedimento cirúrgico no qual a médica falhou. Em 24 de agosto de 1990, a advogada fez uma cirurgia para retirar um cisto no ovário. Após retornar para sua casa, ela sentiu fortes dores no abdômen e decidiu retornar ao médico.

A advogada foi internada com urgência na CTI (Centro de Terapia Intensiva), pois durante o procedimento da primeira cirurgia, a médica cortou o ureter (um dos canais que conduz a urina à bexiga). "Fui submetida a uma cirurgia que durou sete horas e o médico retirou dois litros e meio de urina que estava acumulada na cavidade abdominal", relembra.

"Meus órgãos estavam boiando na urina e eu acabei perdendo o rim esquerdo, pois estava necrosado por conta desse acúmulo de líquido", conta ela. "Quando fui para a CTI eu pensei: ‘Se eu que sou uma advogada passei por isso, imagina uma pessoa que não tem condição financeira? ’", completa.

A profissional também relata que, no seu caso, o juíz condenou a médica a um ano de detenção, sem direito a sursis (suspensão condicional da pena). "Ela (médica) me procurou e pediu um acordo e recebi R$ 10 mil. O dinheiro eu reverti para a compra de cadeiras de rodas de outros associados. Assim, ela se livrou de cumprir a pena".

Ela conta que quando fundou a AVERMES muitos desacreditaram de que seria capaz de conquistar alguma vitória contra os médicos, pois a classe médica é extremamente unida. Porém, mesmo com todas as ideias negativas a respeito do projeto, Célia não desistiu.

"Quando abri a associação nunca pensei que a demanda de casos e solicitações fossem tão grandes", diz ela. E completa: "Desde 1991 estou nessa luta, nessa batalha, nessa guerra e eu tenho mais vitórias do que derrotas", comemora.

Perder uma causa é uma possibilidade que nunca passa pela cabeça da fundadora da associação, como ela mesma conta: "Só pego causas nas quais acredito que a pessoa vai ganhar. No decorrer de muitos processos descobrimos que sempre há uma manipulação dos laudos periciais por causa da máfia de branco (médicos). Assim ficamos mais atentos", comenta ela.

Para lutar em busca dos direitos, a vítima de um erro médico precisa reunir alguns materiais. "O primeiro passo é pegar a cópia do prontuário. Muitos não sabem, mas de acordo com o artigo 70 do Código de Ética Médica, o paciente tem o direito de retirar esse documento no hospital", garante ela. "Organize também outros documentos, como exames e relatórios médicos, por exemplo", acrescenta.

De acordo com Célia, o maior índice de negligência médica que está sendo registrado é em partos fórceps. "No momento de puxar a criança com uma pinça gigante acontece uma lesão na caixa craniana, clavícula e, às vezes, ocorre o falecimento do bebê", esclarece ela.


Mesmo com a demora da justiça brasileira para solucionar os casos, a advogada ressalta que não desiste de lutar por quem necessita. "Algumas pessoas morrem sem ganhar o processo devido à demora da justiça. Já outras recebem o precatório após aguardarem 15 anos", esclarece a advogada. "Desde que criei a fundação eu compreendi que o meu dever é ajudar as pessoas carentes e é isso que faço", finaliza.

Por Stefane Braga (MBPress)

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