Por que o espelho do vizinho tem imagem melhor?

Qualquer um pode ser vítima das referências de sucesso, beleza e vida (quase) perfeita, basta estar emocionalmente frágil, inseguro e com a autoestima baixa.
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Foto: Reprodução/Instagram

Cada época tem seus conceitos de sucesso e beleza, que se modificam culturalmente, seguindo os padrões sociais vigentes. Isto explica porque é divertido ver álbuns de família ou assistir a filmes antigos, quando algumas tendências, que então eram admiradas, hoje não têm apelo para serem seguidas. 

Mesmo o modismo que volta a interessar vem repaginado para os moldes atuais. Suspeito que este comportamento de olhar em volta e eleger o modelo ideal existiu até entre os nossos mais remotos antepassados. Afinal, desde que o mundo é mundo, uns se destacam mais do que outros, e, ao se perceber que deu certo para o outro, por que não fazer parecido? Trata-se da aprendizagem por observação e imitação, estudada pelo psicólogo Albert Bandura.


Existe um aspecto interessante nisso, que fala das capacidades de aprendizagem e de adaptação, tão necessárias na vida social, porque permitem um reconhecimento de emoções e comportamentos e, em consequência, facilitam as interações. As explicações para este movimento de aproximação vão desde Carl Gustav Jung, que afirma que "Nós nos vemos pelo olhar do outro, se o outro não estiver ali, nos perdemos, não sabemos quem somos. Não nos reconhecemos", até à descoberta dos neurônios espelho, pela neurociência, todos se buscam e tentam se reconhecer no outro. Então, se isto é uma característica humana, onde está o problema? Está no fato de as pessoas acreditarem que existem condições que podem tornar a vida mais fácil, como ser bonito, magro e bem-sucedido, por exemplo. E que estas condições estão fora e não dentro delas.

As crianças imitam pais ou avôs; na adolescência, elegem seus ídolos entre cantores e atletas; mais velhas, voltam-se para as referências em suas profissões. Espelhar-se em alguém não é necessariamente ruim. Nociva é a glamourização excessiva de vidas muito distantes do dia a dia da maioria dos mortais. Prejudicial é a banalização da individualidade, o querer ser como o outro. Tóxico é esquecer de sua essência e perseguir a ilusão de que, ao deixar de ser quem se é, todos os conflitos e problemas desaparecerão. A diminuição do nível de satisfação consigo mesmo e com a vida, causada pelas pressões de uma sociedade competitiva e que mede o indivíduo pelo sucesso que conquistou, leva ao desenvolvimento de transtornos como ansiedade e depressão.

Nas últimas décadas, as pessoas têm desviado os olhos do espelho e fixado a atenção em redes sociais e blogs, seguindo empreendedores, gurus da autoajuda e musas fitness. Qualquer um pode ser vítima destas referências de sucesso, beleza e vida (quase) perfeita, basta estar emocionalmente frágil, inseguro e com a autoestima baixa. 

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Foto: Elements of Style Blog

Momentos de crise e fases difíceis, como perda de emprego, rompimentos afetivos, afastamento de amigos e família, por qualquer motivo, podem tornar o indivíduo mais vulnerável a perseguir modelos e exemplos de afirmação e êxito. No mundo maravilhoso que invade a vida de pessoas comuns, não há lugar para dúvidas, quem quer, consegue o emprego, o carro, a alma gêmea, fama e fortuna. Ou até bens intangíveis, como beleza e felicidade. Esta é a mensagem repetida à exaustão: o ideal é inatingível, mas o fracasso, individual.

Não me parece um bom investimento ansiar por uma vida que lhe foi vendida como perfeita e que, para ser alcançada, o preço será abrir mão de si mesmo. A questão então é: como escapar desta armadilha e experimentar um genuíno bem-estar, que não seja de segunda mão? O contentamento passa pelo entendimento das próprias necessidades, das mais básicas às complexas. Querer emagrecer para se sentir saudável, mas dentro de seu biotipo e não por cobiçar o corpo da modelo da capa, fará com que o objetivo seja alcançado sem sacrifícios.

Desejar se sentir bonita pode ser conseguido ao se transformar de dentro para fora, cultivando autoestima e leveza, em vez de procurar essa sensação em produtos cosméticos ou procedimentos estéticos.

Tornar-se bem-sucedido, como sinônimo de viver com dignidade, desfrutar de cultura e investir no aprimoramento pessoal, independentemente do status. Afinal, a pessoa que você pode ser já existe, só falta deixá-la ser protagonista da história.

Por Maria Cristina Ramos Britto - Psicóloga com especialização em terapia cognitivo-comportamental.

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