Os perigos da direção noturna

Os perigos da direção noturna

Trânsito e carga horária de trabalho cada vez mais intensa fazem com que muita gente acabe ficando mais horas ao volante, mesmo quem não trabalha como motorista. Para se livrar dos grandes congestionamentos, muita gente prefere sair mais tarde do escritório e dirigir à noite, o que nem sempre é indicado à saúde.

A visão, por exemplo, é prejudicada de várias formas. Segundo o oftalmologista Virgilio Centurion, diretor do IMO, Instituto de Moléstias Oculares, o ofuscamento causado pelos faróis de outros veículos e a incapacidade enxergar certas distâncias são as principais queixas dos pacientes.

"Ardência e visão turva são algumas. Freqüentemente atendemos pacientes que reclamam sobre o ato de dirigir no período noturno, mesmo os que não têm nenhum vício de refração, como miopia, hipermetropia e astigmatismo", diz. Com a falta de claridade, os motoristas têm dificuldade de enxergar certos detalhes das imagens - a razão é simples, cones e bastonetes, principais células de visão, funcionam bem apenas com iluminação.

"Com pouca luz, a capacidade de enxergar é reduzida em até 30%", alerta o profissional. O ponto crítico acontece no final do dia, entre às entre 17h e 20h, justamente no período chamado lusco-fusco, em que muita gente está no trânsito quando sai do trabalho. "Justamente no período de tempo que o mecanismo da visão passa por uma mudança que torna o olho humano muito mais sensível à luz", diz. A conseqüência? Mais acidentes. Segundo as estatísticas da Polícia Rodoviária Federal, quase 30% dos desastres nas estradas ocorrem nesse período.

Quem tem algum problema de visão, entre eles, miopia, hipermetropia, astigmatismo, glaucoma e catarata, sem dúvida vai senti-lo ainda mais se está ao volante no período noturno. "Mesmo que a pessoa não sinta falta de óculos durante o dia, a deficiência à noite é bastante agravada", alerta o oftalmologista Eduardo de Lucca. Segundo o profissional, na hora do lusco-fusco, portadores de miopia, por exemplo, chegam a diminuir até duas linhas das medidas de acuidade visual da Carta de Snellen, uma escala optométrica utilizada por oftalmologistas para medir a capacidade de visão dos pacientes.

Em casos mais sérios, o motorista pode apresentar retinose pigmentária, doença que proporciona um campo visual mais tubular. O problema é hereditário e tem como sintoma a cegueira noturna. Nos Estados Unidos, cerca de 100 mil pessoas têm cegueira noturna, mas no Brasil não há estatísticas para compararmos os dados. "O que sabemos é que as pessoas de pele mais clara sofrem mais com o ofuscamento por ter menos pigmentos na íris. Quando a luz bate, reflete dentro dos olhos, funcionando como uma caixa espelhada", explica Centurion.

Quem também sofre com o ofuscamento durante a noite são os portadores de fotofobia, pessoas mais sensíveis à luz. "O problema pode ser resolvido com o uso de óculos especiais", diz o profissional. Geralmente, eles são feitos de lentes com filtros que contrastam mais à noite e reagem melhor os estímulos luminosos.

Durante a noite, com a perda da distância e profundidade, os reflexos também ficam mais lentos, principalmente entre os portadores de miopia e astigmatismo. Portanto, a recomendação dos especialistas é usar filtros para óculos com lentes amarelas. Mas acima de tudo é necessário manter em dia as visitas aos oftalmologistas. "Com uma avaliação completa é possível verificar a pressão intra-ocular, mapear a retina e detectar possíveis doenças. Quando elas existirem indicamos os tratamentos adequados", ressalta o oftalmologista José Geraldo, do Hospital de Olhos Inob.

Driblando o sono

Várias pesquisas indicam que dormir ao volante é a segunda causa de acidentes de carro. Em momentos de sonolência durante a direção, os especialistas recomendam dar uma cochilada de 30 minutos e depois tomar um cafezinho para ficar mais acordado. Entretanto, Sérgio Tufik, diretor do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), não indica qualquer bebida, seja ela café ou energética, para espantar o sono.

"O sono é um sinal de que o motorista precisa parar. Se a sonolência for driblada, ela volta sem aviso depois", explica Tufik. Dessa forma, o motorista não terá o próprio controle e vai apagar na direção.

Depois de sobreviver a um acidente de moto e quase perder a vida, o assessor de imprensa Rodrigo Carvalho prefere mesmo um cochilo ou mesmo dormir na estrada quando o sono toma conta. Acostumado a viagens longas pelo país, sempre de moto, ele diz que o segredo é manter a sua rotina de exercícios físicos, com corridas matinais, para se manter bem disposto na estrada. "Aprendi que isso é a melhor forma de manter a minha rotina", diz. Todos os dias, ele trafega pela Rodovia dos Imigrantes, que liga a Baixada Santista a São Paulo para trabalhar na capital, isso durante a madrugada e no final da tarde, ao escurecer.

Situação semelhante acontece com bartender Gabriel Garcia. Muitas vezes ele precisa descer a serra de madrugada por conta do trabalho, mas não recorre a qualquer tipo de bebida a fim de se manter acordado. "Tenho medo dos efeitos colaterais". Depois de bater a lateral do carro em um caminhão, por conta de um cochilo, agora ele prefere estacionar o carro, tirar uma soneca e seguir viagem. "Por isso também mantenho sempre o corpo e a cabeça em atividade, cuido da minha saúde", conta.

Quando o sono toma conta, o assistente de marketing Renato Marangoni Pontes Pacheco, liga o rádio do carro e começa a cantar. "Só ouvir música dá vontade de dormir. Se o sono está muito forte tenho que abrir as janelas e, às vezes, tomar um vento na cara", diz.


Segundo os especialistas da Clínica do Sono, de Minas Gerais, nem sempre isso pode dar certo quando o nível do sono está muito alto. Abrir a janela, ligar o rádio, parar para esticar as pernas - têm eficácia limitada. Para se manter alerta ao dirigir, eles indicam a paradinha a cada 200 km, de pelo menos 30 minutos. Também é importante evitar consumir comidas pesadas e nunca usar remédios estimulantes, pois eles mascaram o sono, afinal, você não vai querer fazer parte das estatísticas.

Por Juliana Lopes

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