Mães encontram no bordado incentivo para enfrentar problemas cardíacos dos filhos

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Bordados a favor da vida

Bordado de Everlinda Gumz Klug, de Cariacica, Espírito Santo, exposto durante o lançamento do livro. Foto/divulgação

Quem já passou pela situação nada confortável de ter um familiar doente, sabe o quanto é difícil e como dói ver alguém que amamos em momentos tão difíceis. Para tentar amenizar a dor, muitas pessoas tentam encontrar formas de distrair a mente e se manter forte para ajudar o parente.

Em São Paulo, a Associação de Assistência à Criança e ao Adolescente Cardíaco e aos Transplantados do Coração (ACTC) reúne mães e acompanhantes de crianças e adolescentes portadores de doenças cardíacas graves para interagirem e contarem suas histórias através do bordado. O projeto denominado "Maria Maria", além de proporcionar desenvolvimento pessoal e inserção social, ajuda um grupo de mulheres a superar a situação difícil em que os filhos se encontram.

Segundo a escritora Cristina Macedo, a decisão de transformar as histórias em um livro surgiu após um percurso de dez anos. A instituição decidiu lançar a obra para mostrar os trabalhos que retratavam a evolução do grupo, tanto do ponto de vista técnico como estético. O livro, intitulado "Bordar a vida - Histórias dos trabalhos das mulheres da ACTC", foi lançado no final de março deste ano. A obra foi escrita por Ana Augusta Rocha e Cristina Macedo, com fotos de Douglas Garcia e Romulo Fialdini.

"É importante divulgar uma experiência em que ensino e aprendizagem se cruzam num exercício de sensível colaboração mútua. Acreditamos também que compartilhar essas vivências que além de retratarem emocionantes história de muitas brasileiras que teimam em lutar frente à adversidade", disse Cristina Macedo.

A escritora também contou que essa é a terceira obra, pois antes já tinham sido publicados os livros "De boca em boca: histórias de todos os cantos do Brasil" e "Linhas da vida", ambos com narrativas orais do nosso folclore, contadas pelas bordadeiras. "A ideia do livro ‘Bordar a vida’ foi satisfazer um desejo que foi sendo arquitetado nos últimos anos, principalmente após alguns projetos em que as nossas bordadeiras puderam mostrar o domínio da técnica e de sua criatividade. Além disso, também falaram um pouco de si mesmas e da sua relação com o bordado", explica Cristina.

A escritora também afirmou que a escolha das histórias foi um processo muito complicado. Ela adoraria ter colocados todas no livro, mas procurou as mais representativas da diversidade do grupo, que tivessem relação com vivência, local de origem, qualidade do trabalho, entre outros. Cristina também destacou que os pássaros na capa simbolizam os voos das bordadeiras. "Após novas vivências, aprendizagens e conquistas, essas mulheres, conhecedoras de seu potencial e fortalecidas, vão em busca de novos caminhos".

E destacou: "Todas as histórias são tocantes, marcadas pela singularidade do ser humano, pois são carregadas de sonhos, esperanças e luta de mulheres que muitas vezes se esquecem de si mesmas, mas teimaram em continuar. São vivências singulares que compartilhadas dão força para que essas bordadeiras possam continuar nessa luta. Mulheres que perdem os filhos, mas continuam a bordar, outras que frente à dor abandonam o bordado... são histórias que nos tocam pela experiência de dor e coragem que carregam".

Acompanhe um trecho da história de Roseane Dourado do Nascimento, do livro "Bordar a vida - Histórias dos trabalhos das mulheres da ACTC" (pág. 106).

Quando eu tinha uns dez anos, costumava criar e costurar roupas de boneca na máquina de minha mãe. Quando ela chegava e via que alguém tinha mexido nas suas coisas, ficava muito brava. Esperta, eu sempre dizia que meus irmãos tinham usado a máquina, até que um belo dia ela me pegou no flagra, mas eu só levei uma bronca.

À medida que fui crescendo, a máquina de costura foi perdendo seu encanto, mas o prazer em fazer trabalhos manuais nunca foi esquecido, e ao vir para a ACTC, em função do tratamento de minha filha, me reencontrei com agulhas e linhas, por meio da atividade Maria Maria. Naquela época, ao ser apresentada pela Cris à arte de Tarsila do Amaral, fiquei encantada com as cores e formas de seus quadros e, desejando bordá-los nas colchas, conheci e me apaixonei pelo patchwork.

Ao bordar, me isolo de tudo e mergulho em outro mundo. Sempre que estou bordando, fico ansiosa para terminar o trabalho e, a cada trabalho concluído, penso nos elogios que as pessoas sempre fazem e que é tão bom ouvir, aumenta minha autoestima. Ao olhar alguns trabalhos que ficaram tão bonitos, nem acredito que fui eu que fiz.

Por Stefane Braga (MBPress)

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