Maconha pode ser usada no tratamento de epilepsia, câncer e até HIV

Maconha para tratamento de Doenças

Foto - Divulgação.

A brasileira Anne Fischer, de 5 anos, garantiu com a Justiça do Distrito Federal o direito de importar e usar o medicamento Canabidiol, conhecido por CBD, extraído da maconha. Com o tratamento, a garota que sofre de encefalopatia epilepsia infantil encontrou na substância a única forma de controlar suas crises convulsivas.

O polêmico caso despertou mais uma vez nossos olhos para o assunto conhecido como "maconha medicinal". Como explicou o Dr. Profº Guilherme Peres Messas, do Depto de Psiquiatria e coordenador do curso de pós-graduação em Psicopatologia Fenomenológica da Santa Casa de São Paulo, "é necessário separar o joio do trigo", principalmente em uma situação delicada como essa.

"Há elementos químicos na maconha que têm efeitos médicos. Assim como quando uma pessoa vai ser operada e recebe um anestésico que tem vários elementos retirados do ópio e da heroína. Isso existe. A grande questão é o termo ‘maconha medicinal’. Não podemos confundir seus componentes químicos de uso médico com o uso recreativo da planta, que não é recomendado", afirma.

Dentro da Cannabis sativa, elemento ativo da planta, existem mais de 60 substâncias presentes, chamadas de canabinóides. "Um desses canabinóides, conhecido como THC, é o responsável pelos efeitos negativos da maconha, como alucinações e dependências, mas também pelos positivos como bem-estar e relaxamento", diz o Dr. Profº Francisco Silveira Guimarães, do Depto. de Farmacologia da USP de Ribeirão Preto, que junto dos também professores José Alexandre Crippa e Antonio Waldo Zuardi escreveu o livro "Cannabis e saúde mental - Uma revisão sobre a droga de abuso e o medicamento".

Segundo Guimarães, o THC ainda é um potente anti-hermético (contra vômitos) e que aumenta o apetite do paciente. "Isso fez com que alguns cientistas e médicos propusessem o uso da maconha liberado para pacientes com câncer terminal, já que você pode aumentar o apetite e diminuir os sofrimentos como vômitos causados pela quimioterapia. Alucinações e dependência não existem nesses casos, já que as doses são controladas", conta.

Não parece satisfatório? Pois outro canabinóide da maconha, conhecido por Canabidiol (CBD), tem o mesmo potencial terapêutico, se não maior, e não produz os efeitos indesejáveis como dependência e alucinação - o famoso "barato" da droga.

"Temos evidências em Ribeirão Preto do CBD agindo contra ansiedade, psicoses, esquizofrenia, convulsões e muitos outros. E não são estudos só com animais em laboratórios, são clínicos, com humanos. Também sabemos que pode ser usado no tratamento do câncer, HIV, como anti-inflamatório e melhora do bem-estar em diversas doenças", diz Guimarães. E acrescenta: "Ninguém aqui está propondo o uso terapêutico da maconha recreativa. Essa substância CBD é retirada da maconha. Até no caso da menina com epilepsia ela foi utilizada".

Foi aprovado em 11 países do mundo um remédio em spray chamado SATIVEX, feito metade de THC e metade de CBD para o tratamento de espasmos e esclerose múltipla, ajudando na dor de cancro e dor neuropática de outras origens.

Mas então os usuários desse medicamento vão sofrer com os efeitos negativos do THC? Não. "O CBD também produz efeitos que antagonizam os negativos do THC, mas não os positivos, sobrando só as coisas boas das duas substâncias", esclarece Guimarães. O preço sugerido do medicamento é de 124,95 dólares (cerca de R$ 276,14). No Brasil, a comercialização está sendo analisada pela Anvisa - sem muitas esperanças.

Cannabis medicinal regulamentada

O médico brasileiro Elisaldo Carlini, pioneiro em estudos de psicofamarcologia em relação à maconha e seus efeitos no corpo humano desde os anos 1960, foi e é responsável por pesquisas com resultados internacionais mostrando que medicamentos à base de Cannabis sativa devem ser utilizados nos tratamentos já citados. Para ele, já está mais do que na hora de reconhecer o uso medicinal da maconha no Brasil.

Tanto que desde 2010 Carlini luta pela criação de uma agência brasileira pública de Cannabis medicinal, com a intenção de regulamentar a plantação, fabricação, e comercialização da maconha e viabilizar o uso medicinal da droga, seja ele como fumo, cápsula ou spray, com controle e rigor. A proposta está sendo avaliada pelo Ministério da Saúde e pelo CONAD (Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas), mas sem previsão alguma de reposta.

Para Messas, a demora da liberação do uso das substâncias da Cannabis no Brasil é devido a alguns motivos: "Primeiro que não há evidência de que elas sirvam para todos como qualquer remédio. Temos casos de sucesso, mas não dá para generalizar. Segundo a dificuldade cultural e o preconceito na utilização de algo relacionado à maconha. Até para quem faz pesquisas científicas é difícil o acesso à droga, o que é injustificável".

Guimarães acredita que um dos grandes problemas é a falta de interesse da indústria farmacêutica em desenvolver essas drogas, isso porque o CBD não é patenteável, pois é da natureza. "Há também certo preconceito por ser derivado da droga da maconha e o desconhecimento das evidencias positivas. A produção também é um problema, já que para produzir CBD você precisa plantar maconha e extrair a substância. E como controlar isso? Os desvios? A Inglaterra superou. Talvez a ideia do Carlini e sua agência seja viável, mas existe muita burocracia para isso."

Por Alessandra Vespa (MBPress)

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