Machismo e violência psicológica: identifique tipos de abuso mental

O abuso psicológico é mais comum do que se imagina. Saiba identificar e tratar estas marcas invisíveis - Por psicóloga Maria Cristina Ramos Britto
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Foto: Kat Jayne/Pexels

As notícias de violência contra mulheres anônimas e famosas, de todas as profissões e classes sociais, crescem a cada dia, porque, com a luta por seus direitos, veio a consciência de que devem denunciar o agressor, como forma de interromper o abuso. Pela coragem de uma mulher, uma Maria, nome-símbolo de todas nós, foi criada, em 2006, a Lei Maria da Penha. 

Desde então, contando com amparo legal, as Marias, Joanas e Teresas perderam o medo e a vergonha de expor seus maridos e namorados abusivos. Mesmo com a alteração do código penal para incluir lei que caracteriza o feminicídio, as mulheres continuam a ser agredidas e, em muitos casos, mortas, principalmente por seus namorados e companheiros. Sim, os números da violência doméstica, ou a cometida por pessoas próximas, é alto: o perigo pode estar mais perto do que se pensa.


Mas se a violência física, representada, em vários graus, por comportamentos que vão de tapinhas a espancamentos, é denunciada porque pode ser comprovada, o que dizer da violência psicológica, muitas vezes sutil o suficiente para causar dúvidas na própria vítima sobre seu discernimento ao que está sendo submetida? Estou falando de abuso psicológico, também chamado de abuso mental ou emocional, que se caracteriza, basicamente, por palavras que pretendem desqualificar e diminuir as emoções de uma pessoa, como críticas destrutivas, por exemplo, ou por gestos que demonstram desprezo e desrespeito, entre outras emoções negativas. 

É assim que começa o ciclo do abuso psicológico, que acaba por se perpetuar ao minar a autoestima da mulher e ao fazê-la duvidar de si mesma, mesmo desconfiando que está sendo vítima de acusações injustas. Pode começar com uma reclamação do marido sobre a comida servida no jantar, ou críticas à inteligência feitas pelo chefe. Porque abuso não tem lugar para acontecer. 

A seguir, enumero quatro formas de desqualificar uma mulher, suas emoções e direitos:

Gaslighting:

O termo vem do título de um filme de 1944, Gaslight, de George Cukor, traduzido no Brasil como À meia-luz. Conta a história de um marido que sutilmente manipula a esposa, até convencê-la de que ela imagina coisas. É um tipo de abuso quase imperceptível, exercido por meio de manipulação, que acaba por minar a autoestima da mulher e a anular sua autoconfiança. A percepção da mulher é embotada porque nada é expresso claramente, e o que ela diz e pensa é questionado e rebatido, de maneira que crie nela a dúvida sobre si mesma. Trata-se de assédio constante, indireto e perverso, que cria na vítima tal estado de confusão e esgotamento que ela perde a capacidade de reagir e de se defender, e muitas vezes dá razão ao abusador.

Bropriating:

Esta forma é comumente encontrada em ambientes profissionais, empresas e universidades. Trata-se da apropriação, por parte de um homem, das ideias ou do trabalho de uma mulher, ficando com os créditos.

Mansplaining:

Ocorre quando um homem se acredita mais bem informado ou inteligente que a mulher, explicando-lhe algo que considera óbvio, de forma didática, como se ela não fosse capaz de compreender, diminuindo-a intelectualmente.

Manterrupting:

Este comportamento é comum em reuniões, debates e palestras, quando o homem não permite que a mulher conclua frases, reflexões ou pensamentos, interrompendo-a constantemente.

Numa sociedade com um ranço machista e ainda tristemente preconceituosa, as mulheres ainda podem ser constrangidas a assumir a responsabilidade pelo relacionamento e suas dificuldades, eximindo a outra parte de contribuir em sua construção, tornando-a alguém que pode apenas usufruir dele. E esta visão da mulher como coadjuvante não existe apenas em casa, mas em todos os espaços. E isto me faz pensar nos relatos do consultório, de mulheres jovens, bonitas e talentosas que se submetem, se não a relacionamentos abusivos, a receber migalhas de homens que não as merecem, por não amá-las e valorizá-las. Por que isso acontece? 

Devemos ouvir essas mulheres e ajudá-las a entender suas crenças sobre amor, respeito, autoestima e companheirismo. E levá-las a descobrir os motivos que as mantêm em relações baseadas na dependência afetiva. 

Por Maria Cristina Ramos Britto - Psicóloga com especialização em terapia cognitivo-comportamental.

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