Laila Sankari - Retrato

Laila Sankari é filha de pai libanês e mãe descendente de alemães. Ainda bebê, sua mãe percebeu que ao bater palmas ela não se mexia. Laila nasceu com surdez parcial profunda, ou seja, ouve muito pouca coisa, ainda assim apenas em volume mais alto.

Laila, ainda criança freqüentou uma escola especial, mas logo teve que passar para um colégio regular que não tinha intérprete de libras (linguagem brasileira de sinais). Tinha então 17 anos e já havia feito com o auxílio de fonoaudióloga - hoje sua voz tem uma modulação bonita. Falar devagar, porém perfeitamente.

Laila se formou em Comunicação (perceberam a poesia da sua escolha?) e muito cedo começou a trabalhar na Prefeitura de São Paulo. Lá, novo desafio: os colegas precisavam se adaptar e falar com ela de frente. Levou mais de um ano para que todos se acostumassem, mas o sistema acabou funcionando: Laila está a nada menos que 28 anos nesse emprego. Na juventude conheceu e namorou Raul Antonio, o marido, com quem teve três filhos. Mas as coisas nem sempre foram assim simples.

Casou-se com Raul que também é surdo e teve o primeiro filho, Leandro. Com um ano de idade Leandro, que ouve, aprendendo a falar, chamava Laila e ela não ouvia e foi difícil explicar a ele que “mamãe não escuta”. Por outro lado, acostumado desde que nasceu a ver os pais se comunicando por sinais, Leandro, desde sempre se comunica perfeitamente movimentando as mãos em Libras, a linguagem brasileira de sinais. Já os irmãos mais novos, Rami e Tarik, ambos também ouvintes, foram imensamente ajudados pelo próprio Leandro.

Para criar os filhos, Laila se lembra de ter lançado mão de vários expedientes pouco ortodoxos, principalmente quando eram bebês e ela não podia ouvi-los chorar ou chamar. Assim, a babá eletrônica adaptada, piscando rápido e com luz indicava um bebê chorando. Apenas piscando era o sinal de que ele estava acordado. Luz piscando com intervalos longos significava a campainha da casa tocando. E assim ia.

Laila acha que hoje até existe uma maior facilidade de comunicação por conta das novas tecnologias que oferecem aparelhos como as webcams, que permitem que os surdos se comuniquem através de sinais, etc...

Porém ela também percebe que, com a cultura da pressa, cada vez menos as pessoas tem paciência para falar devagar e dispensar o tipo de atenção mais focada que uma conversa com um surdo requer.

Laila cita ainda o exemplo das emissoras de TV que só trazem intérpretes de libras para a programação jornalística ou apenas para as principais novelas - e assim mesmo, apenas à noite. Considera isso insuficiente e com razão. Que critério é esse afinal que decide que os surdos só precisam assistir TV a noite e apenas a telejornais e novelas?

E os outros programas? E o entretenimento puro? Os game shows, os programas de culinária, os femininos, os jogos esportivos, os educativos?Porque limitar mais ainda o universo dessas pessoas por pura preguiça, ou pior, por um critério de economia estreito e míope?

Laila é muito elegante para gestos bruscos ou para armar barraco por qualquer coisa. Mesmo assim, com seu jeito suave e sua postura deslizante, ela segue em frente com a firmeza da verdadeira suavidade. Devagar, aponta necessidades que, aos poucos vão sendo supridas.

Como as chamadas de hospitais, aeroportos, estações de trem e metrô, por exemplo, que são sempre feitas por voz - fazendo com que uma enorme quantidade de deficientes auditivos perca o avião, compromissos e consultas médicas importantes por conta de não ouvirem o chamado.

Problemas de tão fácil solução! Basta acoplar em aviso luminoso, luzes piscando para que elas saibam que algo está sendo modificado ou mesmo que chegou a vez na consulta ou a hora de embarcar. Mas, para que ocorra a mudança é preciso que se adotem políticas públicas e seja incorporado um procedimento padrão.

Voltando a Laila, Raul Antonio e seus três filhos: pergunto a ela se ela tem um objeto de desejo como um super aparelho de audição - se há uma nova geração de aparelhos com tanto evolução tecnológica. Surpreendentemente ela me diz que não. Que os aparelhos para surdos evoluíram muito pouco nos últimos anos.

“Com o que você sonha então?“ - pergunto surpresa que as novas tecnologias tenham se sofisticado tanto no quesito telefonias, por exemplo, e tão pouco para uma ferramenta tão importante quanto o aparelho para surdez.

- “Sonho com mais intérpretes de libras na televisão” - responde ela e seus olhos verdes brilham ante a perspectiva de ver TV o dia inteiro e compreender integralmente o conteúdo da programação.

Taí a sugestão.

Com a vantagem que, ao colocar um intérprete de sinais permanentemente na tela traduzindo toda sorte de assuntos durante todo o tempo da programação, as emissoras estariam agregando uma enorme vantagem, além de facilitar a compreensão da comunidade de surdos a sua programação.

É que, de tanto ver os tradutores na tela, até mesmo os não surdos, com o tempo, aprenderiam o essencial da linguagem de libras, iniciando assim uma onda de aprendizado lenta, sem dúvida, porém gradual e irreversível. E que, com tempo, só pode resultar em uma maior integração entre todas as pessoas - surdas, ouvintes e de todas as nacionalidades.

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Bebê especial - o papel da famíliaJornalista, escritora e palestrante, Claudia Matarazzo é autora de vários livros sobre etiqueta e comportamento: “Visual, uma questão pessoal”, “Negócios Negócios - Etiqueta faz parte”, “Amante Elegante - Um Guia de Etiqueta a Dois”, "Casamento sem Frescura", "net.com.classe", "Beleza 10", "Case e Arrase - um guia para seu grande dia", "Gafe não é Pecado" e "Etiqueta sem Frescura"

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