É possível dispensar os testes em animais?

testes em animais

Foto: Rainer Berg/Westend61/Corbis

Dezenas de beagles usados para testes de medicamentos e cosméticos foram resgatados do prédio do Instituto Royal, em São Roque, interior de São Paulo, na ultima sexta-feira (18). Após receber denúncias de que os testes em animais eram abusivos, um grupo de mais ou menos 100 ativistas invadiu as dependências da empresa e esvaziou os canis. Lá foram encontrados beagles de vários tamanhos. Coelhos também foram retirados de lá.

O caso trouxe de volta às mídias a discussão sobre a real necessidade do uso de cães em testes de laboratório. E segundo Dra. Greyce Lousana, presidente executiva da SBPPC (Sociedade Brasileira de Profissionais em Pesquisa Clínica), médica veterinária e bióloga, os cães, mais precisamente os da raça beagle, estão entre os mais usados em testes em animais porque já se tem um padrão genético bem definido e mapeado dessa raça, que é bem antiga, o que auxilia no conhecimento de parâmetros importantes para análise.

"Os pesquisados (tanto animais como humanos) têm que ter características genéticas iguais ou parecidas para não prejudicar o estudo", explica. Além disso, os beagles são encontrados em todo mundo, o que facilita os estudos que precisam ser validados em diferentes países. "Existem leis nacionais e internacionais que estabelecem regras e limites ao uso de animais em testes de medicamentos e cosméticos e procuram impedir qualquer processo investigativo clínico ou científico que resulte no sofrimento de animais não humanos", completa.

Para garantir que as leis sejam cumpridas existe, desde 2008, a Lei nº 11.794, chamada de Lei Arouca, criada para fiscalizar, orientar e preservar de forma ética os procedimentos para o uso científico de animais. Existe ainda o Concea (Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal) e os CEUAs (Comissões de Ética no Uso de Animais), que fazem uma rigorosa avaliação Bioética e Bem-Estar Animal, semelhante ao sistema CEP/CONEP para pesquisas em humanos.

Mesmo regulamentado por lei, o uso de animais é criticado porque, segundo alguns especialistas, o processo não é eficiente, uma vez que um medicamento que dá reação no animal pode não causar mal algum ao ser humano e vice-versa. Outro ponto é que já existem por aí outros mecanismos capazes de dispensar o uso de cães e outros seres vivos. Dra. Greyce cita como testes alternativos os estudos em culturas celulares, modelos computacionais, processos de análise genômica dentre outros. Mas não crê que estes substituam os animais. Pelo menos por enquanto.

"Nos dias atuais ainda é impossível o desenvolvimento de certos produtos, tanto para a saúde humana como animal, sem a fase de experimentação em animais. Quase nenhuma vacina e muitos medicamentos não seriam desenvolvidos sem a experiência em animais, pois não há como testar sua eficácia, reações adversas ou efeitos colaterais a não ser em seres vivos que tenham características compatíveis com as do ser humano", defende.

A médica diz ainda que, em uma das etapas dos estudos clínicos, é possível dispensar os animais, valendo-se da cultura de células, mas não em todo o processo. Sem os testes em animais os seres humanos que precisam de medicamentos correriam mais riscos. "A ciência vem trabalhando arduamente para a eliminação de animais para o desenvolvimento e controle de vacinas e hormônios. Mas uma substituição definitiva ainda levará algum tempo."

Além de ainda não dispensar animais em testes de laboratório por motivos científicos, O Brasil não possui hoje um órgão para validar métodos alternativos ao uso de animais nessas pesquisas quando há outros meios de se chegar ao mesmo resultado sem os animais. Segundo o governo, órgão está em fase de criação. O próprio coordenador do Concea, Marcelo Morales, disse em entrevista que esse órgão será inaugurado em breve e está sendo formado há cerca de um ano.

Selo "não testado em animais"?

Por conta da intensa repercussão que o assunto tomou, empresas de cosméticos, produtos de higiene e medicamentos expuseram seus mecanismos de testes aos consumidores, e muitas das que não fazem uso de cães como cobaias ganharam pontos com os consumidores.

"Já existem alguns movimentos e projetos de ONGs favoráveis à incorporação de um selo na embalagem de cosméticos e produtos de higiene e limpeza, que informe ao consumidor se o produto foi testado em animais e se há na formulação substâncias de origem animal. Entretanto, não vejo necessidade de se fazer o mesmo com medicamentos, pois é do conhecimento da população que os mesmo são testados em diferentes animais", comenta Dra. Greyce.


Por Juliana Falcão (MBPress)

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