Doação de órgãos

Doação de órgãos

Todos os anos o governo realiza campanhas para que as pessoas se conscientizem sobre a importância da doação de órgãos. O problema é que as propagandas nem sempre deixam tudo muito claro, o que faz com que muitos não se interessem pela ideia.

Para esclarecer melhor esse assunto, o Vila Equilíbrio entrevistou a cirurgiã transplantadora Eloiza Quintela, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

Primeiro de tudo, a médica afirma que é essencial que o desejo de se tornar um doador de órgãos seja revelado à família. Como a própria cirurgiã brinca, "você pode comentar durante um almoço de domingo, com a família reunida". Essa pequena ação pode garantir que, posteriormente, o indivíduo se torne, de fato, um doador.

O desejo só se torna concreto quando a família assina um termo por escrito. Caso contrário, se não houver essa autorização, os órgãos não podem ser retirados. "Caso ocorra uma situação de morte encefálica, a família irá lembrar e respeitar, na maioria das vezes, a sua opinião. Pode-se deixar expresso em documento de identidade, mas o que prevalece é a vontade da família, que é sempre respeitada", explica Eloiza. Mesmo com as autorizações necessárias, ainda assim, para todas as doações, existe a presença de duas testemunhas.

Antigamente, a lei que regia a doação era falha. "Em 1997, quando se criou a primeira lei, foi uma catástrofe. Presumia-se que a doação de órgãos era uma imposição. Quando era constatada a morte encefálica, era o governo que ficava com os órgãos. Havia muitas perdas", relata a cirurgiã, também membro da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), em São Paulo. Naquele mesmo ano, os transplantes não chegaram a 40. E era obrigatório constar na identidade ou na habilitação se a pessoa era ou não doadora. Isso só foi mudado em dezembro de 2000.

Outro fato curioso dessa antiga organização era a fila de espera. Muitas pessoas morriam esperando para serem transplantadas, pois a ordem era cronológica. O primeiro da fila era quem recebia os órgãos, independente do quadro clínico. "Antes, se havia mil pessoas na fila, o último era morte na certa", afirma Eloiza.

Hoje, o sistema para avaliação foi modificado. Os mais graves tem uma chance maior de cura e o modelo está até sendo copiado por outros países, de tão eficaz. "A pessoa espera no máximo um ano. No caso de doenças graves, como câncer no fígado, por exemplo, em seis meses o paciente tem que estar transplantado", afirma.

O que pode ser doado?

Córneas, coração, pulmões, rins, fígado, pâncreas, intestino, ossos, cartilagens, pele (em partes não visíveis), medula, tendões e até veias. "Um doador, que tenha todos os seus órgãos íntegros, pode vir a salvar até 16 vidas", afirma Eloiza.

E, diferente do que muitos pensam, é obrigação dos médicos transplantadores devolverem o corpo à família com a mesma aparência de antes. "As pessoas acham que a gente brinca de mecânico, mas não é bem assim. A doação de órgãos não mutila o corpo, apenas deixa duas cicatrizes - no peito e na barriga. A retirada de órgãos é uma cirurgia cuidadosa em que são observados todos os rigores de um procedimento cirúrgico rotineiro", esclarece Eloiza.

Ela afirma que, mesmo com a nova geração saúde - preocupada com ter uma melhora na qualidade de vida e prevenção de doença - há, ainda, doadores que tem órgãos descartados por problemas como obesidade e colesterol alto. "É muito triste você ter um órgão que não pode ser utilizado, por estar cheio de gordura", afirma.

Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, em 2007 o número de transplantes realizados no país foi de 17.428. Já em 2009, esse número aumentou para 18.989. No primeiro semestre de 2009, o número de transplantados chegou a 8.192, o que não chega nem a 14% do número de pessoas que estão atualmente na fila de espera: 59.944.

A carência de doadores de órgãos é ainda um grande obstáculo para a efetivação de transplantes no Brasil. Mesmo nos casos em que o órgão pode ser obtido de um doador vivo, a quantidade de transplantes é pequena diante da demanda de pacientes que esperam pela cirurgia. "A falta de informação e o preconceito também acabam limitando o número de doações obtidas de pacientes com morte cerebral. Com a conscientização efetiva da população, o número de doações pode aumentar de forma significativa. Para muitos pacientes, o transplante de órgãos é a única forma de salvar suas vidas", encerra Eloiza.

Entenda a doação de órgãos

A lista de espera funciona assim: cada paciente recebe um número de acordo com a gravidade do quadro clínico. Se é uma pessoa que pode esperar algum tempo, o número é menor, se não pode esperar tanto, o número é maior.

Pacientes com risco de vida imediato são passados para o começo da fila automaticamente, antes de todos. Por isso, se a doença é muito grave e precisa de um transplante rápido, o paciente não tem mais que se preocupar em esperar todos na sua frente, porque ele tem prioridade.

Só pode se tornar um potencial doador aquele que receber o diagnóstico de morte encefálica - quando o encéfalo (parte responsável por coordenar o corpo) para de funcionar.

Em vida (o chamado transplante intervivo), órgãos como rim, e parte do pulmão, pâncreas e fígado podem ser transplantados entre familiares de até quarto grau e cônjuges. Fora isso, amigos e outros interessados têm que ter autorização expressa de um juiz, que analisará histórico e a relação em vida que doador e receptor possuem. Em alguns casos, mesmo feita a comprovação de proximidade, a doação é recusada. Sangue, medula óssea e veias, também podem ser doadas em vida.

A doação por menores de idade é permitida somente com autorização de ambos os pais ou responsáveis. Pessoas não identificadas e deficientes mentais não podem ser doadores. Não existe limite de idade, porém todos os casos de doação são avaliados pela equipe de transplantes quanto à viabilidade dos órgãos.


Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO)

(11) 3262-3353

abto@abto.org.br

Campanha do governo - Doe Vida, doe orgãos

www.doevida.com.br

Por Tissiane Vicentin (MBPress)

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