Déficit de atenção: mal da vida moderna?

Déficit de atenção mal da vida moderna

Déficit de atenção é um transtorno que altera a capacidade de concentração do indivíduo. Na maioria dos casos ele surge ainda na infância, durante a fase escolar, e pode acompanhar o acometido durante a sua vida adulta. Estima-se que de 3 a 5% das crianças brasileiras sofrem com o distúrbio.

De acordo com a Associação Brasileira do Déficit de Atenção, o transtorno geralmente aparece acompanhado pela hiperatividade. As causas não são definidas. Segundo a associação, alguns genes podem ser os responsáveis não pelo déficit, mas pela predisposição ao transtorno. Isso porque a incidência nas famílias de quem sofre da doença é de duas a dez vezes maior do que na população em geral.

Embora essa seja uma patologia reconhecia pela Organização Mundial de Saúde há pessoas que discordam de sua existência e relacionam a doença ao modo de vida atual. Há também os profissionais que se mostram contra a prescrição indiscriminada de medicamento. "Hoje é comum dizer que as crianças têm déficit de atenção e hiperatividade, mas a sociedade em que vivemos é assim. Como o professor quer que a criança fique todo o tempo quieta na cadeira?", argumenta a Dra. Luciara Avelino, professora da Millennium Línguas e terapeuta psicossocial da Sociedade de Psicanálise Integral."

A professora não desacredita na existência do transtorno, porém afirma que é preciso ter cuidado na hora de diagnosticar e principalmente na aplicação indevida de medicamentos. "Se o pai da criança é uma pessoa agitada, que não consegue terminar as atividades que inicia e não fica quieto em lugar algum é comum que se irrite ao notar as mesmas características no filho", exemplifica a terapeuta psicossocial.

"Esse mesmo pai irá exigir que o filho se comporte da maneira que ele julga mais adequada. Não que ele se reconheça naquelas ações, é uma atitude inconsciente", afirma Dra. Luciara. Esse fenômeno é chamado de projeção. Os pequenos respondem aos estímulos externos. Como os adultos têm um cotidiano extremamente agitado é compreensível que elas também sejam. A professora dispara: "Em casos como esses sou contra o uso de medicação".

A Dra. Luciara Avelino é co-autora do livro "A terapia em sala de aula" (Editora Proton 2010), a obra foi escrita com base em sua experiência em ensino e psicanálise. "Notamos que todos os problemas de aprendizado e conflito familiar têm cunho psicológico a ser tratado", revela a professora. No livro, a psicóloga recomenda a Psico-sócio-patologia para tratamentos de transtornos como o déficit de atenção.

Psico-sócio-patologia é um método de tratamento desenvolvido pelo psicanalista Norberto Keppe. "O trabalho é feito com a conscientização do problema, uma avaliação interior. A conscientização ocorre quando a criança e o adulto passam a sentir as questões internas", afirma Dra. Avelino.

"Mesmo que parece sem sentido, hoje não ‘sentimos’ mais os sentimentos", completa. Segundo a professora, o tratamento auxilia no trabalho de pais, mestre, diretores e pedagogos e é recomendado para transtornos que afetam o aprendizado, inclusive para aqueles provocados pela projeção. "O nosso trabalho é trazer a consciência disso, tanto para o filho quanto para o pai", garante.

A terapeuta psicossocial é contra a implantação de remédios nesse caso. "Existem vários tipos de pessoas, por isso, vários jeitos de aprender. Hoje se uma criança demora a aprender a ler sofre de déficit de atenção, ou se troca as letras durante o processo de alfabetização, o que é completamente normal, tem dislexia", aponta. Estudos apontam que a medicação transforma o jeito de ser das crianças.

"O profissional tem que aprender a educar, a usar a pedagogia e não remédios. O medicamento não pode ocupar o lugar da família e do professor. É preciso fortalecer a criança internamente", esclarece Dra. Luciara. "O sucesso com a analise é muito maior, aliás, acredito que só há essa forma". É importante ressaltar que o tempo de tratamento à base de terapia varia de caso para caso, porém, as crianças respondem mais rapidamente do que os adultos.


Dra. Avelino conclui reforçando a ideia de que a melhor maneira de educar é ter contato com a sua própria essência. E afirma que esse contato está cada vez mais difícil. "Temos que procurar ajuda de especialista, a Sociedade de Análise tem ferramentas para esse fortalecimento interior", finaliza a terapeuta psicossocial.

Bianca de Souza (MBPress)

Comente