A mamografia é capaz de detectar o câncer de mama?

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Foto: Jim Craigmyle/Corbis

O mês de outubro é dedicado à conscientização das mulheres sobre a prevenção do câncer de mama. De acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer, este ano devem ser diagnosticados mais de 50 mil casos. E uma das formas de preveneir o câncer de mama é realizar a mamografia, que nada mais é do que um raio X especial que pode detectar estágios do câncer precocemente, quando o tamanho do tumor é menor.

É importante explicar que a mamografia é uma prevenção secundária, ou seja, ela rastreia e diagnostica a doença numa fase precoce para evitar o acometimento e a morbidade. Existem dois tipos de mamografia: a convencional e a digital, que pode ser CR (Radiografia Computadorizada) e DR (Radiografia Digital). A DR tem uma visualização melhor do que a CR e ambas as digitais são mais detalhadas do que a convencional.

Entretanto, as chances de erro neste tipo de exame giram em torno de 10% a 15% dos casos por vários motivos. Um deles é que os próprios profissionais de saúde atestam que faltam profissionais de radiologia com nível de conhecimento suficiente para fazer a leitura dessas mamografias. Outro é que a mamografia pode trazer falso-negativo (quando tem um nódulo e o aparelho não detecta) e falso-positivo (quando não tem nada e o aparelho detecta algo que se confunde com um nódulo).

Dra. Vivian Schivartche, médica radiologista do CDB Premium (Centro de Diagnósticos Brasil), em São Paulo, explica que na Medicina não existe exame ou método 100%. "Alguns tipos de câncer de mama são mais difíceis de ver na mamografia, mas hoje temos a tomossíntese ou mamografia 3D, que detectam esses casos, além do ultrassom e da ressonância magnética. Com esses métodos, o falso- positivo foi reduzido."

O falso-positivo pode acontecer por sobreposição de estruturas normais da mama nas imagens. E nesses casos também a tomissíntese, a ultrassom e a ressonância podem solucionar a dúvida.

Mesmo com as desconfianças a respeito da mamografia, Dra. Vivian garante que ela rastreia e detecta precocemente o câncer de mama, identificando tumores que não são palpáveis. "Estudos científicos mostraram redução na mortalidade por câncer de mama quando se faz o rastreamento mamográfico anual por meio da mamografia", diz. "Um deles, feito em 2011, estimou que o procedimento evita 1.121 mortes a cada 100 mil mulheres rastreadas (entre 50 e 74 anos)", completa.

A especialista aproveita para dizer que a radiação da mamografia não propicia o surgimento do câncer de mama. E que essa história de que a compressão da mama pelo aparelho faz o câncer de espalhar é puro mito.

"O risco de desenvolver câncer de mama dessa maneira é desprezível. E a compressão da mama durante a mamografia é leve e cada imagem do exame dura segundos. Apenas a compressão não é suficiente para que as células do tumor se desloquem". E alerta: "O risco de não fazer a mamografia e notar o tumor apenas quando ele está palpável é muito maior. Quando ele é palpável, há mais chances de que já tenha se espalhado."

A mamografia é feita anualmente, o que para alguns especialistas é uma pausa muito longa, dando margem ao chamado câncer de intervalo. Mas a médica radiologista mais uma vez tranquiliza as mulheres, alegando que esse tipo de câncer é raro. "Em mulheres que têm risco aumentado para a doença (têm parentes de primeiro grau com câncer de mama, já tiveram câncer, tem mutação genética ou fizeram radioterapia do tórax), podemos fazer ultrassom das mamas e ressonância magnética nos intervalos dos rastreamentos mamográfico, reduzindo os cânceres de intervalo nesse grupo."

Outros exames que detectam o câncer de mama

Dra. Vivian aproveita para explicar com detalhes os outros exames que, assim como a mamografia, ajudam a diagnosticar o câncer de mama:

Ultrassonografia: Este exame não comprime a mama nem usa raio-X. O aparelho é passado sobre a mama com gel e deve ser usado em mulheres jovens, em nódulos palpáveis, para avaliar alterações da mamografia e ressonância. Está indicada para mulheres de alto risco.

Doppler e elastografia: São métodos adicionais do ultrassom, feitos em aparelho semelhante, sem compressão, que ajudam a decidir se aquela alteração do ultrassom merece ser biopsiada ou acompanhada.

Ressonância magnética: É indicada no rastreamento anual de mulheres de alto risco e em alguns casos de alterações da mamografia ou ultrassom, quando queremos ver a extensão da alteração. A utilização deve ser estudada caso a caso. Para a realização do exame a mulher entra deitada de barriga para baixo na máquina e não há compressão das mamas. A ressonância também é usada para detectar rupturas de próteses mamárias.

Se a mamografia é a prevenção secundária, qual é a primária?

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Foto: Rick Gomez/Corbis

É a nossa, por meio do toque e do zelo pela saúde. Apesar de não haver comprovação científica da associação da alimentação ao câncer de mama, é de conhecimento de todos que uma dieta saudável, rica em frutas, verduras e legumes, beneficia a saúde.

O que se sabe é que a obesidade é um fator de risco, principalmente depois da menopausa. Segundo um estudo divulgado pelo diretor da Sociedade Brasileira de Mastologia, Dr. Eduardo Millen, a mulher que mantém seu IMC (índice de massa corporal) controlado consegue reduzir os riscos de câncer. Depois de se avaliar 337 mil pacientes chegou-se à conclusão de que quem estava com IMC maior do que 28kg por metro quadrado tinha 26% mais chance de ter um tumor de mama. E se o IMC era de 29, o risco aumentava para 29%.

O emagrecimento, por sua vez, tem efeito protetor. Uma perda de 10 quilos reduz risco de câncer em 57%. "A atividade física também ajuda na prevenção. Quem faz mais de 10 horas semanais de caminhada reduz os riscos de desenvolver a doença", explica o especialista.

O diretor da Sociedade Brasileira de Mastologia alerta que 90% das mulheres que desenvolvem câncer de mama não têm casos de doença na família. E na parcela de pacientes que apresentaram a doença por conta do histórico familiar (10%), 5% tem mutação genética comprovada.

"O câncer de mama também tem relação com o envelhecimento. A população está cada vez mais idosa no país, o que aumenta o risco de tumores, principalmente depois dos 60 anos, por conta da diminuição dos mecanismos de defesa do organismo. É pequeno o número de mulheres que apresentam câncer de mama antes dos 40 anos", diz o médico.

Dr. Eduardo alerta ainda que não há comprovação de que o fator emocional aumente as chances de surgimento da doença. Claro que problemas como depressão mexem com a imunidade, mas, cientificamente, não se afirma essa relação.

Diante de tanta informação, porque as campanhas não fazem aumentar significativamente o número de exames de exames preventivos no país? Na opinião do diretor da SBM, isso acontece porque as iniciativas só mobilizam quem acha que pode desenvolver a doença. Elas não conseguem fazer seu papel preventivo.


"As campanhas não tocam quem não tem o problema ou acham que não têm. Por isso, penso que não somente os mastologistas, mas todos os profissionais da saúde, precisam incentivar seus pacientes com mais de 40 anos a fazerem os exames de mamografia. Um cardiologista, por exemplo, não vai avaliar o exame, mas vai fazer a triagem, lembrar a paciente sobre a importância do exame", diz o especialista.

O autoexame não dispensa a realização da mamografia anual. Sem contar que o câncer de mama não causa dor. Se ela existe está associada a outros problemas. Desse modo, a mulher deve procurar um ginecologista ou mastologista caso note qualquer alteração das mamas, como nódulo palpável, descamação do mamilo, secreção espontânea com sangue ou clara como água.

"As mulheres precisam se preocupar em cobrar os médicos sobre o exame. Às vezes elas estão em dia com as consultas, mas não fazem a prevenção corretamente. Outro ponto importante é que não adianta fazer campanha e a mulher não ter acesso à mamografia. Por isso, elas também devem cobrar das autoridades o direito a realizar seus exames preventivos", finaliza Dr. Eduardo.

Por Juliana Falcão (MBPress)

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