Fototerapia - Uma história de amor e luta

Fototerapia  Uma história de amor e luta

Thiago Cenjor e Patrícia Lopes. Foto: Kica de Castro.

Formada em Publicidade e Propaganda, Kica de Castro até seguiu a carreira durante cinco anos, mas o verdadeiro dom não a deixou ir em frente no meio anúncios, spots e jingles. Sempre faltava o "algo mais". "A fotografia me chamava", lembra. Não é para menos, afinal a fotografia estava no sangue.

Toda essa magia que utiliza para tirar fotos, hoje, teve certa influencia do pai, fotógrafo amador, que adorava eternizar as reuniões de família ou um simples momento em poses e detalhes. "Eu ficava encantada de o ver fotografando. E me encantava mais ficar atrás das câmeras do que na frente", comenta.

Em 2000, Kica iniciou sua carreira profissional participando de eventos corporativos e sociais, mas a paixão pela arte de fotografar vem desde cedo. "Sempre gostei de fotografar, lembro do tempo de máquinas de filmes 35 mm, quando eu fazia teste, em busca de fotos ‘artísticas’. Fiz muito isso até os 16 anos", relembra a fotógrafa.

Decidida a mudar de rumo, foi atrás de um emprego fixo na área da fotografia até que finalmente achou uma porta aberta: um anúncio em um jornal que dizia "Precisa-se de fotógrafo(a)", sem mais informações. Kica foi tentar a sorte. Semanas depois, a resposta apareceu e ela foi chamada para uma entrevista. O emprego era em um centro de reabilitação para pessoas com deficiência física. "Não tinha experiência, não sabia como tratar as pessoas, mais resolvi aceitar o desafio", lembra. "Confesso que o começo, assim como tudo, foi muito difícil. Eu não sabia como chegar às pessoas e as pessoas não sabiam como falar comigo".

Mas nem por isso ela desistiu. No fundo, sabia que aquilo era o "algo mais" tão procurado. Depois de três meses, Kica resolveu arrumar um jeito de derreter o gelo estabelecido entre ela e os pacientes fotografados. Foi por meio de bijuterias, espelhos, gel e maquiagem que a fotógrafa se aproximou daquelas pessoas. "Brincava com os pacientes falando que eram pré-ensaios para revistas do gênero feminino e masculino. Isso foi os deixando mais soltos", lembra.

Mais do que simplesmente deixá-los à vontade, Kica iniciou um projeto de possibilidades para o mundo deles: a "Fototerapia". "Foi quando elas começaram a se ver de fato como eram: pessoas com uma beleza diferenciada. Seres humanos, com físico, sonhos, beleza e potencial para lutar", observa com sensibilidade.

Para a surpresa da fotógrafa, três anos depois do primeiro encontro, as meninas antes fotografadas por Kica começaram a se interessar pela área de moda e a procuravam com o intuito de modelar. "Elas queriam fazer books e batalhar nessa área. Esse foi o início, mais com muitas barreiras, com o book nas mãos, muita vontade de trabalhar e todas as respostas eram ‘não’", relembra.

Foi então que Kica decidiu tornar realidade o sonho dessas meninas. Em suas pesquisas, encontrou uma oportunidade: um concurso de beleza da "Mais Bela Cadeirante", realizado na Alemanha. Seguindo esse foco, encontrou na França um tipo de reality show feito só com cadeirantes. "Mais não era isso ainda", revela Kica.

Em 2007 ela criou a agência Kica de Castro, especializada em modelos com deficiência física. "Vi o potencial dessas pessoas e percebi que não existia no mercado uma agência para elas. Resolvi colocar as mãos na massa e, juntamente com elas, lutar por oportunidades. Ninguém que está na agência gosta de ser visto com o ‘coitadinho’. Eles estão lutando porque realmente são bonitos e têm talento. Querem apenas oportunidade de apresentar o potencial que cada um tem", esclarece.

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E tanto esforço logo trouxe retorno. No ano seguinte, Kica conseguiu uma parceria com uma agência em Berlim, a "Visable" e, em 2009, demonstrou ter ótimos resultados no quesito "modelos fotográficos e passarela", realizando um desfile de moda inclusiva - com roupas adaptadas - e um desfile inclusivo com modelos com e sem deficiência desfilando juntas. Um marco para todos.

A luta de Kica e dos modelos com deficiência é constante e diária. "Se não fosse a lei de cotas, muitos deles não estariam no mercado de trabalho. Foi preciso ter uma lei para os empresários verem que eles são capazes de desempenhar diversas tarefas. Eles estudam, eles correm atrás, passam por processos seletivos, precisam pagar as contas", adverte a profissional.


Muito mais do que um trabalho bem feito, Kica almeja um sentimento que envolva a todos. O caminho é difícil, mas a persistência e a determinação são bem mais fortes do que qualquer barreira. "Queremos muito acabar com a pior deficiência da humanidade, que é o preconceito", admite Kica. "Beleza e deficiência não são palavras opostas. Temos que respeitar as limitações de cada um, afinal todos têm, seja em pequena ou grande escala. Minhas modelos são lindas, inteligentes, mas ainda faltam oportunidades".

Por Tissiane Vicentin (MBPress)

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