Falando Grego

Falando Grego

O que não falta nesse mundo é história pra ouvir.

Porque há mais pescador bom de lábia na areia do que peixe de três metros no mar.

Mas eu sou capaz de ver sereias quando leio a história da caixa de Pandora, de Hesíodo.

Porque a caixa de Pandora ilustra o fato mais bonito e inspirador da vida humana: as inúmeras possibilidades.

E não é preciso falar grego para entender a mensagem: você nunca sabe o que mais tem no fundo da caixa.

Mas tem que mantê-la aberta para descobrir.

Abrir. E manter aberta. Duas ações que mudam uma vida.

E se para toda ação há uma reação, toda reação configura uma mudança do estado inicial.

Enquanto vivos, a mudança é inevitável. Mas quando a ação é proposital, a mudança pode significar algo fantástico na sua vida. Sim, existe um limite para resistir à correnteza, mas o ato de remar certamente faz muita diferença.

Às vezes, se entregar à correnteza é viver um dia após o outro, sem sair da zona de conforto e esperar por aquela promoção ou declaração de amor repentina. Quem sabe na próxima.

Mas essa espera causa o mesmo torcicolo que sinto quando espero (im)pacientemente o ônibus ao sair do trabalho.

Eu e todos os meus colegas de "busão" sofremos desse mesmo torcicolo. Durante uma hora, permanecemos olhando para a esquerda (o lado por onde o ônibus vai aparecer), mesmo sabendo que ainda tem muito tempo até o trem chegar.

Galera, estamos no terminal. Quando chegar, o ônibus vai parar de qualquer maneira. Não faz diferença ficar na expectativa, olhando para o mesmo lugar. Em matéria de inutilidade, a expectativa só é superada por previsão de horóscopo: uma porta aberta para a decepção.

E a expectativa é a descrição exata de como eu sou quando acordo atrasada para trabalhar: míope e exagerada.

Sabemos que isso não vai se concretizar antes do tempo certo.

E pior: fazemos planos que somente serão possíveis quando aquilo que esperamos finalmente se efetivar.

E eu penso com meus botões inexistentes: que absurdo.

Acostumar-se à espera é negar todas as outras oportunidades que passam pela sua vida.

Se você está confortável esperando um ônibus específico, as outras dezenas que passam a cada cinco minutos no terminal não significam oportunidades para você. A menos que esfrie e comece a chover.

E às vezes a espera parece tão natural que somente essa chuva pode forçar a mudança.

Mas nada como um bom problema para sacudir um método errado.

Nada como um grande degrau para nos forçar a ir para o alto.

Você nunca sabe o que pode conquistar, as pessoas que pode conhecer e as experiências que pode viver.

Não duvide: são os problemas as locomotivas que levam nossa vida para frente e nos apresentam novos caminhos.

Tudo pode acontecer. E resistir ao problema torna o degrau uma sombra. Então assuma os remos e utilize a correnteza (que é inevitável) para fazer acontecer a vida que você quer viver.

E talvez agir e querer mudar não deixe de também ser deixar-se levar pela correnteza. Porque ela também condiciona a rota que os remos são obrigados a traçar, não é mesmo?

Sim. Grandes planos falham todos os dias. Mas quando o esforço vem de dentro para fora, dedicação sem limites, o sucesso é garantido. Sucesso na vida, não no plano inicial.

Paulo Leminski dizia: "isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além".

Ou seja, na busca por uma meta inicial, você descobre coisas muito maiores que ela no caminho.

Ter um problema é estar preparado para uma grande oportunidade. E encarar o problema é abrir uma caixa de novas possibilidades.

E durante milênios, nenhum argumento provou falsa a mensagem de Pandora: você nunca sabe o que lhe espera. A vida ainda pode te surpreeender. E tentar fazer acontecer, agir de corpo e alma, é fazer um convite às oportunidades.


Abra a caixa. Entregue-se de corpo e alma à ação e mudança. Você verá que o resto é conseqüência. Mantenha a caixa aberta. E veja o que aparece na sua vida.

Porque buscando a situação desejada, você não sabe para quais caminhos a vida pode te levar.

E por que querer mais? Por que querer essa vida fantástica?

Uma vida é um bolo de chocolate. A receita para ficar bom é simples. Admita.

Mas viver uma vida fantástica é como colocar uma cereja no topo desse bolo.

Uma ação dispensável.

Mas estupenda.

Marianna Greca é publicitária e nerd assumida. Social Media, webwriter, tradutora e desenhista compulsiva. Tão louca por Internet quanto pela Ilíada. Acredita que assumir a maternidade do mundo é o melhor caminho para a felicidade.

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