Bom senso desassombrado

mulher deitada na grama

“Todo homem tem lá seu pouco juízo” R. L. Stevenson

Quase não ouvimos falar em bom senso hoje em dia. Isso é péssimo, entretanto é o que precisamos, hoje, mais do que nunca. Fui educado de modo que tivesse bom senso (às vezes meu pai chamava de “juízo”) e também desassombro, ou audácia, e até hoje ainda uso essas palavras. Encontrei-as outra vez, ao ler o livro de Robert Persig “Zen e a Arte da Manutenção de Motos”, no qual o autor faz apologia a tudo quanto o bom senso desassombrado representa. Assim ele escreve:

“Gosto da expressão ‘bom senso desassombrado’ porque ela é simples, desprezada e tão fora de moda que até parece estar precisando de um amigo: não parece que ela possa rejeitar seja lá quem for que lhe chegar perto. É velha expressão milenar, muito usada antigamente. Hoje, porém, está em desuso... Uma pessoa cheia de bom senso e desassombro não fica sentada por aí consumindo-se, exasperando-se, por causa das coisas. Tem plena consciência de si mesma, vigia a estrada da vida e enfrenta quaisquer problemas, à medida que vão chegando.”

Logo depois, Persig aplica esse conceito à vida. Esconde seus comentários sob a parábola da manutenção de uma motocicleta: “Uma pessoa cheia de bom senso e desassombro tem plena consciência de si mesma, vigia a estrada da vida e enfrenta quaisquer problemas, à medida que vão chegando.”

“Se você vai consertar uma motocicleta, a primeira e mais importante ferramenta é uma boa porção de bom senso e audácia desassombrada. Se você não tem bom senso, nem desassombro, é melhor você recolher as demais ferramentas e guardá-las, porque não lhes serão úteis. Bom senso desassombrado é a gasolina psíquica que alimenta a máquina e a põe em movimento. Se você não tem esse combustível, não há maneira de consertar-se a moto. Contudo, se você tem bom senso desassombrado e sabe conservá-lo, não há absolutamente no mundo inteiro quem possa impedir que a moto seja consertada. Está determinado que a moto se consertará. Portanto, o que se deve controlar o tempo todo, o que se deve preservar antes de qualquer outra coisa, é o bom senso e a audácia desassombrada”

É vergonhoso. Parece-me que as expressões “bom senso”, “juízo”, “audácia” e “desassombro” se tenham perdido nas gretas do tempo, especialmente agora que a desistência é mais popular do que a persistência. Concordo com esse autor que gostaria de iniciar uma nova carreira nesse campo. Que tal você encontrar um novo curso no catálogo das Universidades: “Bom sensologia desassombrada?” Todavia, isso nunca acontecerá, porque o bom senso e a audácia se aprendem, não se ensinam.

Como é verdade a respeito da maioria das características de caráter, tanto o bom senso quanto a audácia está entranhada sutilmente na trama da vida da pessoa, de tal modo que poucos param a fim de identificá-los. Fazem escondidos, à semelhança das grossas barras de aço nas colunas de concreto que suportam pontilhões imensos. Pode ser que o bom senso e o desassombro estejam escondidos, mas são importantes para que sejamos eficientes.

O juízo, combinado com a ousadia, capacita-nos a economizar, em vez de dissipar, cada centavo ganho. Ajuda-nos nas tarefas mais difíceis, como criar criteriosamente um modelo novo, adicionar mais alguns cômodos à casa, estudar um idioma, fazer dieta para perder peso e manter o perfil delgado. Ou ler um livro por mês. A maior parte das pessoas recebe um pequeno quinhão de bom senso desassombrado, ao nascer. Contudo, essa ferramenta logo enferruja.

Aqui vai algumas dicas para manter seu bom senso sempre em cima:

O dia de hoje é singular! Nunca aconteceu antes e jamais se repetirá. Terminará à meia-noite, tranqüilo, repentino e totalmente. Para sempre. Entretanto, as horas que medeiam este instante e a meia-noite constituem oportunidade para ser sensato.

Viva o dia de hoje integralmente, sensatamente - como se fosse seu último dia na terra. Pode ser mesmo.

Sugestão de leitura

PERSIG, M. Robert - Zen e a arte da manutenção de motocicletas.

Daniel C. Luz

Autor dos livros Insight I e Insight II

DVS Editora

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