Vizinhos ou inimigos?

Vizinhos ou inimigos

Desde que se mudaram para o apartamento novo, o casal de irmãos Paola e Fabiano tem enfrentado um problema esquisito: a vizinha do andar de cima. A primeira carta que receberam dela, há quatro meses, não trazia assinatura. Mas era impossível não saber de onde vinha. Ela reclamava do cheiro de perfume, do aroma do amaciante de roupa, da cera (que Paola e Fabiano nunca usaram) do piso.

Eles não deram muita bola para a carta, até que a vizinha desceu e mostrou as caras. “Lembro de ela dizer que não conseguia respirar por causa do meu perfume, dos produtos de limpeza que usava”, conta Paola. “Não entendo como ela viveu tanto tempo sem respirar”.

Os dois prometeram colaborar, fechando as janelas. Mas se negaram a mudar de hábitos por conta da vizinha. Ai veio nova carta, nova visita, e a coisa foi ficando complicada. Helena já tinha envolvido outras pessoas do prédio e armado a maior confusão.

Helena passou dos limites quando amigos de Paola e Fabiano fumavam na sacada do apartamento. A vizinha, sem pestanejar, começou a gritar e pior, jogou um balde de água nos convidados. A cena se repetiu mais duas vezes, até que Paola se irritou de vez e tentou conversar com Helena. Ela se negou a atender a porta e o interfone e, desde então, as duas não pegam mais elevador juntas. Inimigas morando lado a lado.

Sem saber o que fazer, Paola primeiro recorreu ao livro de ocorrências, que fica na portaria. Então procurou a síndica e descobriu que as implicâncias de Helena não eram apenas com o perfume ou a fumaça do cigarro do apartamento dela. A mulher era a rainha da encrenca e reclamava até da luz de segurança da garagem.

O conselho de moradores decidiu então preparar um documento com todas as reclamações e enviá-lo para o departamento jurídico da administradora. A solução? Entraram em contato com o proprietário do imóvel (Helena é inquilina) e prometeram a emissão de multa, caso as reclamações não parassem. A vizinha chatona sossegou e até agora, todos vivem felizem.

Esse problema, que não estava previsto em norma específica alguma, é um exemplo, entre tantos outros, que geram problemas em condomínios e edifícios. “Garagem, festas e serviços de portaria também são campeões de reclamação”, conta o administrador Marcos Vinicio Monte Dias, diretor da empresa Syndicos, com mais de 20 anos de experiência na gestão e administração de condomínios no Rio de Janeiro.

Antes de tomar qualquer atitude frente a um vizinho que incomodem é preciso sempre levar em conta a convenção e o regulamento interno do condomínio. O síndico deve então averiguar a procedência da reclamação, horários, com vista nas regras. “Cabe a ele manter a harmonia entre os condôminos, traçar planos exeqüíveis, restaurando, mantendo e melhorando o patrimônio. Ser todos sem deixar de ser ele mesmo”, explica.

Ele diz ainda que os regulamentos internos são fundamentais e, se forem utilizados com aplicação de multas, tornam-se instrumentos corretivos. Às vezes, até a prefeitura ou a polícia pode ajudar. “Mas é bom lembrar que a prefeitura absorve reclamações quanto a obras irregulares ou problemas ocorridos em logradouros públicos, por exemplo. A polícia tem por função resolver os problemas que extrapolam a área condominial (drogas, segurança externa, violência)”, comenta.

Marcos acha que para uma vizinhança em paz, é preciso saber distinguir o morador chato do exigente. “O primeiro nada acrescenta e o segundo é de grande utilidade. Os livros de reclamações, colocados na portaria, desnudam estes tipos de condôminos”.

Quanto ao caso de Paola, Fabiano e Helena, ele explica que como a autuação do condomínio será ao imóvel (apartamento), deverá mesmo ser respondida pelo proprietário. “Notificar e multar por reincidência costuma funcionar”, diz.


Por Sabrina Passos (MBPress)

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