Uma nova mulher

Em meio às minhas pesquisas sobre as representações da mulher na mídia, me deparo, com certa freqüência, a uma tal de Nova Mulher. É, mais ou menos, na década de 1990, que surge esta noção, um tanto abstrata, de que, com a chegada do novo século, estaria nascendo este Ser, esta Entidade, este Algo Novo. Mas, na vida real, alguém já cruzou com este mito? Na mídia, sua apresentação é, com freqüência, precedida de algo do tipo “enfim…”, cuja função é nos dizer que agora é pra valer: esta é a mulher que “está usando”. As anteriores, podem jogar no lixo. Reciclável, por favor, porque estamos na era do consumo consciente.

Geralmente o Dia Internacional da Mulher é a melhor oportunidade para vermos, de forma condensada, aquilo que a mídia pensa a nosso respeito. Ou melhor, a respeito dela: a Nova Mulher. Não que nos outros meses não haja um bombardeio permanente de modelos e receitas de comportamentos “novos e atuais”, mas alguma coisa acontece em março, e todo mundo resolve sintetizar o “insintetizável”.

Esta mulher não é muitas coisas, isso todos já sabem. Ela não é a dona-de-casa molóide dos anos 50, não é a feminista de voz grossa dos anos 60 e também não é a maluca que queria ser perfeita em tudo do ano 2008 (ah, não? Sei, sei...).

Rótulos não lhe faltam: mulher do século XXI (estranho, porque todas as mulheres que estão vivas neste momento…), millenium woman, mulher alfa, terceira mulher, mulher 2.0, feminista-feminina, feminina-feminista, indeterminada, equilibrista.

Mas, quem é esta figura afinal? Vamos a um exemplo. Ano de 2007. Revista: Veja Edição Especial Mulher. Capa: Angelina Jolie. Chamada de capa: “O que ela já tem da mulher do futuro e que todas teremos”. Nada, imagino. Alguém aí tem um Brad Pitt, por acaso? Alguém aí ganha cachê de 20 milhões de dólares por filme? Alguém aí tem cicatrizes suuuuper descoladas para ostentar sob as fendas de um vestido Hermès? Aliás, alguém aí tem um vestido Hermès?


Bom, então, o que ela tem que todas teremos? Dá pra ser alguma coisa mais fácil de conseguir? Claro! Trata-se, nas palavras da revista, da “nova austeridade”. Que consiste em: ser “careta” sem ser “certinha”. Ser “sexy sem ser vulgar”. Ter “aparência simples e essência complexa”. Ser “guerreira e frágil”. “Enfim, uma heroína de carne e osso”. “A cara do futuro”.

Tá fácil este futuro! Mas, nada de pânico. Isto foi nos idos de 2007… Em dois anos, tudo pode mudar. Muito embora a análise das revistas femininas, infelizmente, não apontem para mudanças significativas na idealização recorrente do que é ser mulher.

Uma a Uma é uma empresa de inteligência de mercado especializada no público feminino. As sócias e colunistas do Vila Mulher, Denise Gallo e Renata Petrovic, ajudam a entender melhor e desvendar as várias faces da mulher contemporânea. Contato: umaauma@umaauma.com.br

Comente