Não viva no piloto automático

Não viva no piloto automático

Faz tempo que você não tira um tempo pra você? Se preocupa mais com seu desempenho no trabalho do que com a harmonia em casa? Ligou o piloto automático e nem sabe mais a quantas anda a vida afetiva e, pior, a saúde?

Se respondeu sim à maioria das perguntas, atenção: você faz parte de um grupo enorme de pessoas que esqueceu como se puxa o freio de mão da vida e tem vivido sempre com o coração perto da boca. Respira, mas quase perde o fôlego. Não caminha, corre. Só pensa em produtividade e esquece todos os outros lados da vida.

Se auto-diagnosticar é quase mais difícil que tomar a decisão de mudar. Mas apenas você é quem pode fazer as duas coisas. O consultor Eduardo Shinyashiki, especialista em desenvolvimento humano, explica como dar atenção a apenas um setor da vida pode prejudicar todos os outros. "Em nome da excelência profissional, muitos abrem mão de bons relacionamentos na vida pessoal, com a ideia fixa de que seu caminho de sucesso é único, inquestionável e correto", fala. "Por algum motivo, separamos nossas vidas em âmbitos, setores independentes entre si, e não percebemos que o que afeta uma das partes, acaba por influenciar as outras também. Ao sacrificar uma ou várias delas, prejudicamos o todo".

Segundo ele, ao traçar um caminho e ficar cego para o que se passa ao redor, se realizam as mesmas sinapses e se explora os mesmos espaços de sempre do cérebro, reduzindo a capacidade mental de raciocínios e reações. "Logo, o desempenho torna-se previsível e de baixa qualidade, comparado ao que se poderia alcançar se explorássemos de forma correta nossas competências", detalha.

Para Eduardo, autor de "Viva como Você Quer Viver" (Gente, 2004) a vida é como uma grande balança, na qual os pesos e medidas devem se equilibrar. Mas apenas cada um pode saber quais as medidas certas para que o equilíbrio predomine. "Embalados pela rotina idêntica dia após dia, não prestamos atenção em nossa balança. E assim, uma hora ou outra, tombamos para algum dos lados", afirma. A dica dele é não encarar momentos de meditação e ponderação como perda de tempo. "Refletir é um investimento em sua saúde, sua vida afetiva, profissional, e em você mesmo".

Em conversa com o Vila Equilíbrio, Eduardo explica quais os sinais de que o freio de mão precisa ser puxado e como se livrar das responsabilidades que a gente mesmo se impõe.

Como a pessoa pode perceber que se esqueceu de puxar o freio de mão? Quais os sinais?

Os sinais mais comuns são cansaço e o desânimo. O cansaço porque a pessoa tem feito um esforço enorme para caminhar pela vida, sempre sobrecarregada de crenças, limitações, justificativas, hábitos, comportamentos repetitivos etc., que dificultam tomadas de decisões e atitudes criativas. Impedem que ela seja livre. O desânimo porque assim a pessoa não consegue os resultados desejados, mesmo gastando muita energia, e aparece, então, a frustração. Outro sinal é a sensação de que a própria vida seja previsível demais, que os acontecimentos e fatos estejam se repetindo, que se esteja vivendo a acomodação e a mesmice, com medo de experimentar o novo.

Quais os maiores problemas em agir dessa maneira? Quais as consequências e qual o prazo para elas aparecerem?

O problema em agir dessa maneira é que nos distanciamos de nós mesmos, da alegria de viver, dos nossos sonhos e metas, e de viver a realização. As consequências podem ser um sentimento de confusão, não se sentir capaz o suficiente, vontade de desistir, se sentir perdido ou de estar vivendo em uma prisão. Isso pode afetar a auto-estima, o conceito que se tem de si próprio e influenciar negativamente as relações interpessoais, afetivas e familiares. Ficando confortáveis no conhecido, automático e habitual, perdemos a possibilidade de evoluir, crescer, progredir.

Muita gente, já no piloto automático, não consegue se livrar das responsabilidades que se impôs. Como resolver o dilema?

A mudança requer um esforço consciente, é preciso primeiro percebê-la como realmente necessária. É importante reconhecer que se está vivendo no piloto automático, e que isso não está sendo satisfatório, ou pior ainda, está criando situações de sofrimento. Isso pode permitir que criemos em nós um forte desejo de fazer diferente, para mudar algo profundamente dentro de nós, e ter ações voluntárias conscientes para superar aquela condição e promover mudanças, permitindo que nos tornemos mais fortes, centrados e coerentes.


Qual sua dica para resolver o problema de maneira prática? Terapia ajuda?

Precisamos ter consciência que nós, seres humanos, possuímos uma capacidade única de mudar, e que estamos em constante mudança e movimento, mesmo sem perceber. Saber, enfim, que a transformação é possível. Podemos começar mudando hábitos limitantes de pensamentos, direcionando mais a nossa atenção para aquilo que estamos pensando e em como estamos imaginando a realidade na nossa cabeça. O pensar e imaginar direciona e influencia o nosso sentir, e, consequentemente, o nosso fazer. Com certeza terapia ajuda, pois lá aprendemos a nos conhecermos melhor e, a partir disso, podemos promover transformações.

Por Sabrina Passos (MBPress)

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