Mulheres trabalham cerca de dez dias a mais que homens

Mulheres trabalham cerca de dez dias a mais que ho

Foto: FreeDigitalPhotos http://bit.ly/JHVdLe

Com o avanço profissional das mulheres nos últimos anos, a conquista do mercado de trabalho não minimizou as tarefas domésticas, mas como quantificar a diferença da jornada delas para a deles?

Dados do relatório "Perfil do Trabalho Decente no Brasil: um Olhar sobre as Unidades da Federação", divulgado na semana passada, pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), apontam que o público feminino trabalha cerca de dez dias a mais por anos que o masculino.

No total, os homens têm jornada de 52,9 horas semanais, enquanto as mulheres, de 58 horas, 5,1 horas a mais do que o sexo oposto - o que equivale a 20 horas adicionais por mês, cerca de dez dias a mais por ano.

O relatório da OIT analisou os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, que aponta que 90,7% das mulheres que estão no mercado de trabalho também realizam atividades domésticas - percentual que cai para 49,7% entre os homens. No trabalho, elas gastam, em média, 36 horas por semana; eles, 43,4 horas. Em casa, por outro lado, elas gastam 22 horas semanais. Os homens, 9,5 horas.

"Se eu tivesse esse tempo a mais, usaria para fazer as coisas que sempre tenho que fazer correndo: tomar café, fazer a unha, ir ao banco. Faço tudo sempre com pressa, contando os segundos", disse a funcionária púbica Gabriela Gonçalves, 26 anos, que concilia a jornada profissional e a doméstica.

Segundo ela, a dupla jornada leva à ansiedade e ao temor de não conseguir administrar bem o tempo. "Na minha opinião, esse é um dado numérico que reflete a consequência da forma como somos criadas, de toda uma cultura. Eu me cobro a casa arrumada todos os dias, a roupa sempre em dia, a geladeira não faltando nada, as flores cuidadas e os lençóis sempre trocados", falou Gabrielaa.

Para o especialista em mercado de trabalho Jorge Pinho, os números ainda estão aquém da realidade. "Acho modesto o cálculo da OIT. Na nossa cultura, a mulher é de fato mais onerada do que o homem. Embora isso tenha mudado nos últimos anos, ainda cabe à mulher os encargos domésticos e os de mãe. Essa é a parte desvantajosa da igualdade buscada", afirma o analista.

"As mulheres cada vez mais querem avançar na vida profissional e ascender no mercado. Isso tem um ônus, não só um bônus. Existem funções femininas que são insubstituíveis, uma delas é a maternidade", explicou Pinho, que também é professor da Universidade de Brasília (UnB).

De acordo com o estudo da OIT, as atividades domésticas que os homens exercem nunca são executadas exclusivamente em casa e, em geral, exigem contatos com outras pessoas e deslocamentos, como fazer compras de supermercado, manutenções esporádicas ou levar os filhos à escola.

"Evidencia-se, portanto, que a massiva incorporação das mulheres ao mercado de trabalho não vem sendo acompanhada de um satisfatório processo de redefinição das relações de gênero com relação à divisão sexual do trabalho, tanto no âmbito da vida privada, quanto no processo de formulação de políticas públicas (...)", detalha o relatório.

Segundo o documento, a incorporação das mulheres ao mercado de trabalho vem ocorrendo de forma expressiva sem que tenha ocorrido uma nova pactuação em relação à responsabilidade pelo trabalho de reprodução social, que continua sendo assumida, exclusiva ou principalmente, pelas mulheres.


De acordo com a diretora da OIT no Brasil, Laís Abramo, é importante que haja políticas que facilitem a vida profissional, pessoal e familiar da mulher. "Isso tem a ver com políticas públicas e empresariais que deem ênfase à noção de co-responsabilidade, com jornadas flexíveis, creches e acesso aos meios de transporte", explica.

Por Carmem Sanches

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