Meu reino por pequenos prazeres

Conheço uma porção de gente que toma banho frio no inverno para “revigorar a pele”, sobe pelas escadas até não importa qual andar para fazer exercício, só lê livros técnicos para complementar seu conhecimento e é incapaz de sair para um passeio pelo simples prazer de observar ao redor.

São pessoas que precisam de metas a longo, médio, curto e curtíssimo prazo. Sentem uma imensa culpa se o seu prazer não estiver, de alguma forma, diretamente associado a algo “útil”. Não se pode culpá-las. Na verdade, são as vítimas mais sensíveis da febre -- na verdade uma epidemia -- do “políticamente correto” que tomou conta do mundo.

Alguns “crimes” que compensam:

Não faz mal que o dia está lindo, ótimo para caminhar: aproveite a folga para pegar uma sessão de cinema bem no meio da tarde. Vá assistir ao último desenho (legendado, claro) da Disney e diga que foi à mostra de cinema chinês. E nem pisque. E já que veio, aproveite para comer pipoca e batatas fritas com muito sal. E uma Coca-Cola classic - não a light.

Pare na banca de jornais - e compre todas - mas todas mesmo - as revistas que tiver vontade. Inclusive aquelas sobre máquinas pesadas, jardinagem e bordados com passo-a-passo que parecem tão práticas e ilustradas, mas que certamente você jamais abrirá. (O máximo que pode acontecer é passá-las adiante para sua sogra, seu sobrinho, o zelador e deixá-los felizes pensando no quanto você é atencioso)

Passe o dia em uma livraria - (duas horas ou uma tarde, não vale). Ou em uma loja de discos. Ou em um shopping. Com direito a compras sem pensar no saldo bancário. No caso da livraria, compre todos os best sellers que tiver vontade sem se preocupar com os comentários de seus amigos metidos a intelectuais.

Compras (quase) inúteis - não pense mais: compre aquela meia de seda di-vi-na e caríssima, que talvez só dure uma noite, mas que vai deixá-la com as pernas e o poder de sedução de Marlene Dietrich em O Anjo Azul

É claro que os prazeres e a lista deles variam de acordo com as preferências e temperamento de cada um. Mas não podemos esquecê-los. O que, convenhamos, acontece cada vez mais, até mesmo sem que percebamos.

Pois é. Um bom antídoto para não se transformar em uma réplica adulta e sem uniforme de um escoteiro ou bandeirante pode ser entregar-se, simplesmente e o quanto antes, aos prazeres mais prosaicos que a vida lhe apresentar.

Jornalista, escritora e palestrante, Claudia Matarazzo é autora de vários livros sobre etiqueta e comportamento: “Visual, uma questão pessoal”, “Negócios Negócios - Etiqueta faz parte”, “Amante Elegante - Um Guia de Etiqueta a Dois”, "Casamento sem Frescura", "net.com.classe", "Beleza 10", "Case e Arrase - um guia para seu grande dia", "Gafe não é Pecado" e "Etiqueta sem Frescura"

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