Malala, a menina que queria ir para a escola

Livro da jornalista Adriana Carranca apresenta a menina que não queria se realizar pelo casamento, mas pela educação

Foto: Reprodução/saraiva

Uma espécie de Cinderela dos tempos modernos, que não queria se realizar através do casamento com o príncipe encantado, mas ir para a escola e encontrar o mundo de possibilidades que a educação oferece. Esta é, na descrição da jornalista Adriana Carranca, Malala, a menina paquistanesa que sofreu um atentado por teimar em estudar e ficou famosa no mundo inteiro ao receber o Prêmio Nobel da Paz. Pois ela também tornou-se a protagonista do livro “Malala, a menina que queria ir para a escola” (Companhia das Letrinhas), de autoria da jornalista.


Colunista dos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, Adriana Carranca possui vasta experiência em reportagens envolvendo o universo de países muçulmanos e nos territórios palestinos. Publicou os livros 'O Irã sob o Chador', 'O Afeganistão depois do Talibã' e 'Os endereços Curiosos de Nova Iorque', para o público adulto. Agora, com Malala, chega ao universo infantojuvenil por meio de uma história de amor aos livros e ao aprendizado, mostrando acima de tudo que as mulheres devem, sim, acreditar no seu potencial, ter voz e lutar por seus direitos e podem fazer isso, de forma pacífica sempre, desde crianças.   Não poderíamos deixar de conversar com a autora aqui no Vila Mulher!

- O que a levou a mergulhar no mundo de 'Malala, a menina que queria ir para a escola'?

Adriana - Eu fui convidada pela Companhia das Letras para escrever um livro adulto sobre a guerra na fronteira do Afeganistão e Paquistão, tendo como gancho o atentado contra Malala. Mas, ao chegar no local e descobrir os encantos daquele vale e a mensagem tão importante que Malala pode passar às crianças, decidi transformar o livro em um infantil. O Vale do Swat é um lugar de histórias incríveis, de um povo guerreiro que vive nas montanhas (os pashtun, etnia de Malala e dos Talibãs também); um lugar cobiçado por grandes conquistadores, como Gengis Khan e Alexandre, o Grande; e habitado no passado por reis e rainhas, príncipes e princesas. Como nos contos de fadas, mas de verdade. Além desses elementos tão relevantes para a literatura infantil, a história da Malala é a de uma criança. Ela tinha apenas 10 anos quando o Talibã invadiu o Vale do Swat. Aos 12 anos, começou a escrever um blog e fez sua voz ser ouvida em todo o mundo. Aos 15 anos, levou um tiro por querer estudar e sobreviveu para se tornar um ícone do direito à educação e a mais jovem Nobel da Paz. É uma história de amor aos livros e ao aprendizado, sobre o poder transformador da escola. É também a história de um pai amoroso, Ziauddin Yousafzai, que deu à filha todas as oportunidades para que se desenvolvesse, assumindo os riscos de sua decisão. Além disso, Malala é uma espécie de Cinderela dos tempos modernos. Ela não queria encontrar um príncipe e se realizar através do casamento, como as princesas do passado, mas ir para a escola e se realizar por si própria, através do mundo de possibilidades que a educação traz.    - Como foi o processo para escrever o livro? Você teve contato direto com a Malala?

Adriana - O processo de apuração foi o mesmo que para os meus livros adultos. A princípio, quando cheguei no Vale do Swat, Malala ainda estava em coma e eu só a encontrei muito mais tarde, já fora do Paquistão. Na época em que fiz a viagem, não sabíamos sequer se ela sobreviveria. Então, eu mergulhei na história através das pessoas que tinham contato com ela. Me hospedei com uma família local, para entender melhor como era a vida no Vale do Swat, convivi com as mulheres e crianças do vilarejo, visitei a Escola Khushal, fui à casa das meninas amigas de escola da Malala e aquelas baleadas com ela no dia do atentado, conversei com professores, colegas de classe, médicos que a atenderam, familiares, vizinhos. Estive na casa da Malala, passei uma tarde observando seu quarto. Tudo isso me ajudou a construir essa personagem, até que eu pude encontrá-la.   - Conte um pouquinho sobre a história do livro. A publicação é voltada apenas para o público infanto juvenil ou, por inúmeras razões sociais e culturais vividas nos mais diversos cantos do mundo (o Brasil, inclusive) as mulheres, em geral, acabam se identificando com a história?

Adriana - Eu tenho recebido retorno de leitores de todas as idades! De pais, que estão lendo o livro para os filhos pequenos, de crianças que já dominam a leitura, de jovens e até de adultos que gostariam de entender melhor sobre a situação naquela região e sobre quem é Malala e encontraram no livro um caminho. Nós destacamos em todo o livro, explicações culturais, geográficas, históricas, o que facilita a leitura e a compreensão. Como nos livros adultos, não abri mão de revelar as fontes, dando a referência de todos os que entrevistei e também uma bibliografia. Isso foi muito bem recebido. É um livro que tem agradado a pessoas de idades diferentes, o que me deixa muito feliz!  A história do livro começa com a minha viagem ao Vale do Swat para pesquisar sobre a história da Malala. Eu dou o contexto histórico e geográfico do local, avanço um pouco na história para falar do tempo em que o vale era um principado, em seguida relato a minha chegada ao Vale do Swat, o cotidiano da vida no local e, a partir daí, a história da Malala vai se desenrolando através dos relatos das pessoas que encontro pelo caminho.

- O que faz de Malala uma pessoa especial e tão diferente das meninas de sua idade no local onde ela vive?

Adriana - Sem dúvida, a escola! Malala poderia ser apenas mais uma vítima da violência no Paquistão, que atinge cerca de 2 mil meninas e mulheres por ano! Além da sorte de sobreviver ao atentado, é claro, o que a diferenciou foi estar preparada para as oportunidades que surgissem. E ela estava preparada porque a Escola Khushal a havia preparado. Aí vemos o poder transformador da educação. Malala era uma menina de uma zona tribal isolada nas montanhas e mergulhada em tradições milenares e se tornou a mais jovem Nobel da Paz. Ela não poderia ter assumido este posto se não estivesse preparada. A Escola Khushal é um oásis de conhecimento num deserto. As crianças ali aprendem em três línguas: pashto, idioma das tribos locais, urdo, língua oficial do Paquistão, e inglês! Todas as alunas daquela escola são Malalas!

- Qual o maior exemplo que Malala, em terras tão distantes, pode deixar às meninas aqui do Brasil?

Adriana - O exemplo de que é possível, de que elas devem acreditar no seu potencial, de que elas devem ter voz e lutar por seus direitos e podem fazer isso, de forma pacífica sempre, mesmo sendo crianças.  

Por Adriana Cocco

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