Lesbocídio: mortes de lésbicas aumenta 150% em 4 anos

Só nos dois primeiros meses de 2018, já foram registradas 26 mortes por lesbocídio. Os dados apontam que 34% dos casos acontecem entre os 20 e 24 anos.

Foto: Istock

Ana Mickaelly, Meiryhellen Bandeira, Emilly Pereira tem uma coisa em comum. As três foram vítimas de lesbocídio: assassinato proposital de lésbicas somente por serem lésbicas. Os crimes foram brutais e cheios de ódio. A primeira, foi morta a facadas pelo sogro ao pedir a namorada em casamento. A segunda e terceira foram namoradas, assassinadas a tiros por um vizinho que não aprovava a relação. 

Essas histórias carregam muita dor, intolerância, preconceito, machismo e lesbofobia. Porém, infelizmente elas também carregam um adjetivo que intensifica isso tudo: a invisibilidade.

De acordo com o Dossiê Sobre Lesbocídio divulgado pelo Núcleo de Inclusão Social da UFRJ, de 2014 para 2017, o número de mortes de lésbicas teve um aumento de 150% de casos. Só nos dois primeiros meses de 2018, houveram 26 mortes por lesbocídio, número que apesar de muito alto, pode ser ainda maior por conta da subnotificação e da falta de dados oficiais.

Crimes praticados por misoginia e lesbofobia

lesbocídio

Foto: Istock

Todos esses crimes são motivados pela misoginia (ódio a mulheres). Segundo o dossiê, 83% dos crimes contra lésbicas são cometidos por homens que não necessariamente possuem algum tipo de parentesco com a vítima, mas que têm algum tipo de  aversão a lésbicas em geral (lesbofobia).

Os crimes praticados contra lésbicas também não podem ser classificados como homofobia, pois a  condição das lésbicas é específica por conta da carga de machismo.

O levantamento também considera o suicídio cometido por lésbicas um lesbocídio por representar um crime de ódio coletivo. “O suicídio representa uma decepção da pessoa com relação a própria vida e a vida em sociedade, e no caso das lésbicas, a gente cataloga o suicídio como um lesbocídio porque a gente identifica que há uma negligência generalizada da sociedade em todas as esferas que a lésbica estiver”, explica Suane Soares ao The Intercept Brasil.

“As mulheres que não correspondem ao que é padronizado, ao que se esperam que elas sigam, são penalizadas. Quando essa mulher é uma lésbica, o que se espera dela é que ela seja discreta, é que ela não solte fogos para declarar o seu amor pela sua esposa. Então, são penalizadas por pessoas que não se sentem bem vivendo próximo a uma lésbica que não se esconde”, explica a pesquisadora Suane Soares, do grupo Lesbocídio – Histórias que ninguém conta, responsável pelo dossiê.

A pesquisa é contínua e apresenta uma demanda ao Estado em busca de solução. “A invisibilidade lésbica dentro da sociedade dificulta o desenvolvimento desse mapeamento. A pesquisa busca criar um espaço de denúncia”, explica a pesquisadora e idealizadora do Dossiê Milena Peres.

Mulheres de 20 a 24 anos são as maiores vítimas

Foto: Istock

Outra característica do lesbocídio é que afeta mulheres jovens que muitas vezes estão passando a se afirmar como lésbicas na sociedade. 34% dos casos acontecem na faixa-etária de 20 a 24 anos. “As pessoas são mortas sem nunca terem dito o que elas são e terem sido percebidas como elas são”, alerta a coordenadora do Dossiê Maria Clara Dias.

São Paulo é o estado que concentra o maior número de assassinatos e suicídios de lésbicas, representando 20% dos registros dos últimos quatro anos de acordo com os registros. Uma característica comum a todas as regiões do país é que mulheres lésbicas têm o dobro de chance de serem assassinadas em regiões de interior.

Existir é um ato político

lesbocídio

Foto: Istock

As lésbicas devem ter o direito de circular por espaços públicos sem sofrer agressões por serem quem são. O respeito precisa existir, e para isso precisamos derrotar o machismo dia após dia. 

Dar atenção devida a essas mulheres, tratar as pessoas de forma igualitária, dar oportunidades, despir-se de preconceitos e aceitar o amor do outro são passos largos que a sociedade ainda precisa dar para que as lésbicas sejam finalmente respeitadas.

“O ato de existir é um ato de resistir dentro da sociedade”, finaliza Suane Soares.

Fontes:

The InterceptDossiê Sobre Lesbocídio

Comente