Facebook: mensagens sexistas geram protestos

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iStock/Poike

A rede social que reúne mais de um bilhão de pessoas no mundo vem recendo diversas críticas por conta das constantes mensagens e fotos sexistas que colocam em xeque a integridade feminina. Imagens de mulheres espancadas, frases machistas e até um vídeo de uma mulher sendo decapitada têm sido compartilhados pelos usuários do Facebook.

De acordo com matéria publicada no site da BBC, uma campanha criada por grupos de mulheres e apoiadores da causa, FBRapen (FBEstupro em tradução livre), já foi tuitada por mais de 50 mil pessoas. As empresas que tinham seus anúncios exibidos em páginas com conteúdo agressivo foram contatadas pelos internautas e até uma petição online conseguiu reunir mais de 220 mil assinaturas.

Quem encabeçou o movimento foi a ativista Soraya Chemaly , responsável pelo grupo americano WAM (Women, Action & the Media ou Mulheres, Ação e Mídia, em tradução literal). A campanha tinha como objetivo exigir do Facebook medidas concretas e eficazes para acabar com o discurso do ódio de gênero em sua rede social.

Laura Bates, fundadora do projeto "Everyday Sexism" (Sexismo Cotidiano, em tradução livre), é uma das organizações que veste a camisa contra as postagens misóginas no Facebook. "Obviamente é difícil moderar uma plataforma de um bilhão de usuários, mas isso está afetando as mulheres de maneira desproporcional", disse em entrevista ao site da BBC.

E completou: "O Facebook age em assuntos como antissemitismo e já foi elogiado por isso, mas quando eles veem imagens de mulheres sendo estupradas não consideram que isso é um tipo de discurso de ódio. Muitas mulheres estão dizendo que isso as impede de usar o Facebook."

Facebook agressões contra mulheres geram protestos

Postagem que circulou no Facebook: "Mulheres merecem os mesmos direitos, e esquerdas (socos)", em tradução livre.

Diante de tantos protestos, o Facebook se manifestou se comprometendo a avaliar e atualizar suas políticas, diretrizes e práticas relativas ao discurso de ódio. Vai também melhorar a formação de seu conteúdo e moderadores aumentar a responsabilidade dos criadores de conteúdo misógino. Inclusive pediu ajuda para os sites em defesa da mulher colaborassem nessa empreitada.

A psicóloga Andrea Jotta, pesquisadora do NPPI (Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática) da PUC-SP, pensa que para censurar ou vetar a veiculação desses posts é preciso mobilizar um número razoável de pessoas, de forma que o objetivo não tenha um efeito contrário.

"Se o grupo que protesta pela retirada dos vídeos e fotos não for grande o suficiente para intimidar quem faz as postagens pode virar alvo de gozação. A psicóloga acha que o protesto é válido sim, mas lembra que as redes sociais abrigam de tudo: pessoas a favor e contra a homofobia, feministas, não feministas, enfim, uma multiplicidade que é inerente ao ser humano.

"Sempre vamos encontrar alguém que tenha a mesma opinião que a gente. Basta procurar. Mas o quanto isso é representativo na sociedade vai depender do número de pessoas que você consegue mobilizar a partir dessa mesma opinião", lembra. "A gozação e a divulgação de certas imagens e vídeos mexem mais com quem realmente se importa com isso. A internet banaliza a sociedade como um todo."

Machismo na rede

A grande quantidade de posts e fotos que agridem as mulheres nas redes sociais vem provando que o machismo ainda teima em integrar o nosso cotidiano. E o Facebook acaba refletindo o que se passa na sociedade e na mídia em geral. A TV mesmo ainda trata a mulher como um ser inferior em alguns programas até hoje. E para Andrea o atraso da maturidade do público feminino no mundo se torna pano de fundo para que esse tipo de atitude persista.

"Por muitos anos fomos proibidas de estudar e trabalhar. Os homens se sentem no direito de brincar com isso e muitas mulheres não levam numa boa", diz. "Ao mesmo tempo, há outras que aceitam ou nem ligam, por considerarem que certas situações não fazem mais parte da vida delas. Por já terem formado uma carreira bem sucedida e conquistado mil coisas, se acham no direito de brincar com isso também. Funciona como uma gozação do time das campeãs, como acontece no futebol."

Até mesmo as situações mais agressivas, como a foto de uma mulher bêbada acompanhada de uma piadinha ou um vídeo de uma mulher sendo decapitada entram nesse nível de discussão. O Facebook, num primeiro momento, se recusou a tirar o vídeo do ar alegando que o mesmo não viola os padrões de comunidade e que as pessoas o compartilham como forma de protesto.

Segundo a psicóloga, posts como os citados acima vão causar os mais diversos tipos de reações, mas tudo depende de como o internauta enxerga e compartilha esse material, se é como forma de protesto contra a violência ou como forma de atingir a mulher. "A definição do que é agressivo ou não é muito pessoal."

Práticas do Facebook

Sobre esse assunto, João Papp, responsável pela área de negócios da Trust UX, diz que o papel da mídia em protestar nesses casos é muito importante. "Os meios de comunicação e o próprio usuário funcionam como filtro também. Não acho que cabe ao Facebook decidir pela manutenção ou retirada do vídeo. É fato que existe uma política estabelecida pela rede social, mas se o vídeo é repudiado pelo público deve ser eliminado sim".

Sobre as possíveis formas de evitar esse tipo de postagem, Papp pensa que o Facebook faz uso de uma filtragem mecânica, o que não é 100% eficiente. Neste caso, o sistema recorre a fórmulas e cálculos matemáticos para identificar os objetos presentes na foto e definir se eles ferem ou não a política de privacidade do site.


"O problema é que um efeito na foto, como uma legenda, por exemplo, pode quebrar o padrão de análise do sistema e liberar uma foto ou um vídeo que deveria ser barrado. Para minimizar os erros é possível deixar as imagens comprometedoras de quarentena, para que, manualmente, as mesmas possam ser liberadas ou não. Mas pelo volume de conteúdo do Facebook, acho que esse procedimento não é utilizado", diz João.

Por Juliana Falcão (MBPress)

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