Deixa doer

Uma pesquisa recente do Cebrid - Centro Brasileiros de Drogas Psicotrópicas revela que as mulheres consomem o dobro de antidepressivos que os homens. O que não quer dizer muito uma vez que, ainda segundo o Cebrid, os níveis de consumo desse tipo de droga subiu a níveis alarmantes.

Em algumas cidades os antidepressivos são as drogas campeãs de vendas .O que quer dizer isso? Antes de mais nada, que as pessoas em geral não suportam mais a dor. Ou pelo menos, que lidam muito mal com ela. Seja a dor física (para a qual hoje existem um sem fim de drogas prontamente ministradas nos pacientes) seja a dor emocional.

Esta é, aliás o grande fantasma de homens e mulheres. Todos parecem ter se esquecido da máxima “no pain no gain”, segundo a qual, só se amadurece depois de passar por algum tipo de revés ou dor mais profunda. Mas também, vamos combinar, quem é que quer amadurecer hoje-?

O que se vê é uma enorme quantidade de marmanjos e mulheres feitas tentando passar pela vida eternamente felizes, alegres e leves. Sem bagagem como muita gente diz.

Mas como assim sem bagagem? Desde quando bagagem é ruim? No que todos chamam de bagagem pode haver tantas lembranças boas... Concordo que muitas podem ser não tão boas, claro. Mas daí a querer deletar todo tipo de sensação e amortecer os sentidos, não dá, concordam?

As mulheres sentem-se duplamente cobradas porque além de ter que se mostrar produtiva, ganhar dinheiro e criar bem filhos, precisam estar bonitas e felizes para maridos ou para encontrar segundos e terceiros parceiros na vida que, por sua vez, só querem saber de mulheres leves.

E dá lhe drogas: “pilulinha” para se sentir feliz, para emagrecer, para melhorar a pele, para dormir bem, para ficar ligada e feliz até mais tarde, se necessário… A tal ponto que, os consumidores da felicidade em drágeas, acham que não tem jeito de se virar sem esse tipo de medicamento.

Ok, concordo que muitas vezes é necessário sim. Como em casos graves de depressão - crônica ou não. Mas grande parte das pessoas que começaram a tomar esse tipo de pílula da felicidade, faz isso para evitar se sentir mal ou “ficar menos estressada” e não para sair de uma pior.

E é claro que tem jeito de passar sem ela. Como? Cobrando-se menos. Ou ouvindo e ignorando sumariamente as cobranças de mídia, mercado e até mesmo de pessoas próximas a nós que muitas vezes não tem idéia do quanto é abusivo esse tipo de cobrança.

Ao consumir indiscriminadamente esse tipo de medicamento, a médio e longo prazo, o que acontece é que podemos acabar anestesiados tanto para as sensações ruins quanto para as boas. E aí, cria-se um circulo vicioso: não sinto o ruim, mas também não sinto o bom e o especial. Então tomo algo para me sentir mais feliz ou menos deprimido. Que me dá uma sensação temporária de euforia.

E acabo me tornando uma criatura meio invulnerável. Tornando-se muito difícil voltar atrás e tornar a ser simplesmente uma pessoa comum com alegrias e tristezas. Intensas claro, mas perfeitamente suportáveis e tão enriquecedoras. Pense o quanto nos empobrece o não sentir ao longo da vida.

Jornalista, escritora e palestrante, Claudia Matarazzo é autora de vários livros sobre etiqueta e comportamento: “Visual, uma questão pessoal”, “Negócios Negócios - Etiqueta faz parte”, “Amante Elegante - Um Guia de Etiqueta a Dois”, "Casamento sem Frescura", "net.com.classe", "Beleza 10", "Case e Arrase - um guia para seu grande dia", "Gafe não é Pecado" e "Etiqueta sem Frescura"

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