Como se assumir gay depois de uma vida hétero?

Lésbica, bissexual, pansexual... A sexualidade não é algo imutável e rígido, portanto, ela pode sim se alterar ao longo da vida - Psicóloga dá dicas para lidar com a descoberta.
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Após 5 meses de separação, Fernanda Gentil assumiu seu namoro com outra jornalista da Globo, Priscila Montandon. Foto: Reprodução

A sexualidade é um assunto complexo que muitas vezes é entendido de maneira superficial e coberto de rótulos que nos confundem mais do que nos ajudam. E os comentários sobre o novo relacionamento da jornalista da Globo Fernanda Gentil são a prova de que as pessoas ainda precisam entender que o amor não tem barreiras físicas.

Separada do ex-marido há cinco meses e mãe de Gabriel, de 1 ano, a jornalista da Globo assumiu seu namoro com outra jornalista da casa, Priscila Montandon. Isso levou muitas pessoas a se perguntarem se é normal, de fato, alguém "mudar de time" com tanta facilidade.

Para responder essa pergunta temos que deixar claro que Fernanda não afirmou ser lésbica nem bissexual e sinceramente, isso só importa a ela. Quando falamos sobre sexualidade, falamos sobre sentimentos - que podem ser universais, independentes do sexo do outro.

Do ponto de vista psicológico, é natural se ter dúvidas sobre a própria sexualidade e isso ocorre com maior frequência na adolescência, porém não significa que a sexualidade não possa ser questionada ao longo da vida. O questionamento da sexualidade na vida adulta permeia uma série de questionamentos e tabus. 


Veja abaixo como lidar com sua sexualidade depois de um casamento ou até mesmo dos filhos:

1. O que fazer quando se tem dúvidas sobre sua sexualidade? 

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“Estou só exercendo meu direito de ser muito, muito feliz", disse Fernanda Gentil.

Quando se está em dúvida sobre sua sexualidade é importante primeiro olhar para si, buscar perceber o que a agrada, o que lhe traz boas sensações, não apenas fisicamente, mas emocionalmente também. Se sentir confortável com suas escolhas é um indicativo de que está sendo verdadeira consigo mesma, e indo pelo caminho certo.

Não procure a resposta para suas dúvidas nas pessoas com quem se relaciona: preste atenção em você, em como se sente, no que você gosta, em quais são os seus desejos, afinal o corpo é seu, as emoções são suas e sua sexualidade deve lhe proporcionar prazer e alegria.

2. A homoafetividade tem data certa para se mostrar?

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Ilustração: Istock/penguinline

Não existe data certa nem idade certa para a manifestação da homoafetividade. Embora ela ocorra com maior frequência na adolescência, isso acontece porque é nesta fase da vida que o interesse sexual se acentua. Tentar criar uma classificação por idade, por exemplo, seria mais uma forma de rotulação que tentaria massificar uma característica que é individual e vai variar de acordo com as experiências, personalidade, ambiente e estímulos que cada pessoa vivenciou.

3.Como explicar para os filhos que seus próximos parceiros (as) podem ser do mesmo sexo?

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"Tenho apenas um recado, e é para os meus filhos, que mais cedo ou mais tarde podem ler ou ouvir tudo por aí: Lembrem de não se importarem com tudo o que dizem sobre nossa vida, o que vale é que a mamãe fala com vocês em casa, olhando nos seus olhos. Não é o que vestimos que muda quem somos, e sim o que fazemos. Lembrem também, sempre, do nosso amor, que não tem cor, sexo ou raça. Amo vocês", disse a apresentadora do Esporte Espetacular.

O maior desafio que uma pessoa enfrenta ao se relacionar com alguém do mesmo gênero é a resistência e preconceito familiar. Contudo é fundamental ser honesta, principalmente com os filhos. Existe um conceito errado de que devemos “poupar” as crianças da verdade porque elas “não saberiam lidar com a situação”. Claro que devemos ter o cuidado de explicar a situação na linguagem que elas entendem, mas mentir não é uma boa opção, principalmente porque as crianças e jovens não são “burros”, eles são capazes de perceber as coisas e é sempre melhor saber pelos pais ou mães do que por terceiros.

Você não precisa falar de uma única vez, você pode ir introduzindo o assunto aos poucos, procurar saber o que eles pensam sobre relacionamentos homoafetivos, o que sabem sobre isso. Ler sobre o assunto com eles ou assistir algum filme que retrate a situação e depois conversar são algumas formas de introduzir a questão. Estabelecer um diálogo sincero com os filhos, expor como se sente e seus motivos e ouvi-los a respeito é a melhor maneira de ser compreendida.

4. Como orientar os filhos sobre o bullying de caráter homofóbico que eles possam vir a sofrer?

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Foto:iStock_monkeybusinessimages

Como em qualquer caso de bullying é importante que os pais acompanhem o dia-a-dia escolar da criança e preste atenção a mudanças de comportamento. Manter um ambiente em casa que favoreça aos filhos se expressarem é importante para que caso o bullying ocorra a criança ou jovem comunique os pais e a escola. A partir daí, muitas ações em conjunto com a escola podem e devem ser realizadas para resolver o problema. Tratar o assunto com os professores e demais pais também é importante para que se evite que outras crianças passem pelo mesmo constrangimento.

5. Como lidar com a pressão da sociedade para que se "escolha um lado"?

É interessante perceber que quando mudamos de opinião sobre outras questões como política ou religião as pessoas aceitam com maior facilidade, mas se for sobre a sexualidade isso é tratado como algo estranho.  A sociedade cria uma expectativa que de todos temos que saber com clareza qual é nossa orientação sexual, no entanto, essa é uma das características mais complexas do ser humano. Essa pressão social aumenta o conflito e nos leva a acreditar que todas as pessoas podem ser “enquadradas” em uma categoria, o que sabemos que não é verdade. Minha dica é ouça os outros, mas sempre preste mais atenção em você!

6. Como se autoaceitar?

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O ex-marido de Fernanda Gentil, Matheus Braga, resolveu usar sua conta pessoal no Instagram para publicar uma foto ao lado do filho do ex-casal, Gabriel. Na mensagem, o seguinte: "Isso que importa e mais nada...boa tarde a todos!". Foto: Reprodução

A autoaceitação é a chave para se viver com plenitude e felicidade. Em um mundo cheio de tantas regras e rótulos quem não se encaixa nos chamados “padrões” sofre imensamente e luta contra si mesmo. Precisamos entender que cada ser humano é único e isso é o que o torna especial. Suas experiências e vivências somente você passou, a sua personalidade somente você tem, suas qualidades e defeitos formam o que você é! 

E assim como raça, cor da pele, religião, situação financeira não definem a essência das pessoas, a orientação sexual também não. Quando ficamos em conflito contra quem somos estamos sendo preconceituosos contra nós mesmos e isso não faz o menor sentido. Criticamos tanto o preconceito alheio e muitas vezes acabamos nos tornando nossos maiores e mais severos críticos. 

Gostar de si mesmo e se respeitar é fundamental para que os outros façam o mesmo.

Por Psicóloga Andrea Ferreira

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