Caso do Flamengo: justiça ou anarquia?

Caso do Flamengo justiça ou anarquia

Foto © Ken Glaser/Corbis

Eles se autointitulam "justiceiros" - um grupo de cerca de 50 pessoas que sai pelas ruas à procura de criminosos e prontos para fazer justiça com as próprias mãos. No recente caso mais comentado, no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro, um adolescente acabou espancado nu e preso a um poste por uma trava de bicicleta por três homens do grupo. O motivo? O jovem supostamente praticava roubos e furtos na região carioca.

A gangue, conhecida por seus integrantes motoqueiros, alega que só atua por conta da falta de policiamento local. Um rapaz que preferiu não ser identificado deixou claro ao "Fantástico": "A gente bate, dá uma lição de moral, impõe a moral, impõe respeito em cima deles e depois libera".

As cenas do jovem preso ao poste chocaram a sociedade e a atitude dos "justiceiros" vem dividindo opiniões nas redes sociais. Enquanto alguns criticam e acham pura brutalidade o ocorrido, outros aplaudem e afirmam: "Bandido bom é bandido morto".

Afinal, a desculpa da "insegurança" é o suficiente para recorrermos a mais violência? Será que essa "justiça com as próprias mãos" é a mais prudente para a sociedade que queremos viver? Conversamos com diversos especialistas para entender.

Procurando explicar o ato, Dr. Jô Furlan, neurocientista comportamental, disse que tudo não passa de "ação e reação". "O instinto de autopreservação é muito forte e básico para o ser humano. Se você se sente ameaçado sucessivas vezes, vai acabar buscando uma forma de se defender. O grande desafio é que quando liberamos a fera que existe dentro de nós, ainda mais estando em grupo, é muito difícil manter o controle e estabelecer limites de até onde se pode ou deve ir", afirmou.

Na pirâmide de Maslow, famoso psicólogo americano, temos a hierarquia de necessidades do ser humano. Depois dos básicos "sono, fome, sede, sexo, excreção e abrigo", o item seguinte e fundamental é a segurança.

Para o professor de ética da PUC Claudio Bifi, o "sentimento de ‘justiça pelas próprias mãos’ sempre irá existir quando a impunidade prevalecer ou quando não houver uma ação imediata do Estado".

No entanto, como ressalta Marcelo Gomes, psicólogo da Fluyr Saudável - Clínica de Combate à Dor: "Não há desculpa para a violência". Para o especialista, a época em que estamos vivendo é de reações sociais. O que antes aceitávamos com resignação e tolerância, agora reagimos e nos manifestamos publicamente com um claro sinal de "basta". No entanto "não podemos resolver as questões passando por cima do que é considerado como valores entre certo e errado".

O próprio Código Penal, no artigo 345, proíbe esse tipo de ação. "Fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão, embora legítima: Pena - detenção, de quinze a um mês, ou multa, além da pena correspondente à violência."

A insegurança não pode servir de desculpa, a partir do momento que existem outras possibilidades de conduta, como adverte o neurocientista, que continua: "Esse caso é um alerta que demonstra o grau de desespero e desamparo que se encontra a população. O sistema de rondas ou patrulhas é uma medida desesperada e não preventiva. A indignação e a insegurança podem estimular as pessoas a buscarem o que chamo de justiça torta. Esse é o principio dos linchamentos e execuções públicas".

"Quando a poeira abaixa, as pessoas não acreditam que fizeram parte daquilo ou apoiaram. O fato não se trata de justiça, mas sim de vingança."

E tem mais. Segundo a psicologia, a eficácia de uma simples punição para mudar comportamentos não é comprovada. "Ao invés de arrependimento, o ato brutal pode gerar no rapaz que sofreu o golpe e em seus amigos sentimentos como revolta e frieza emocional, aumentando ainda mais suas chances de se tornarem grandes delinquentes. Vide o caso do garoto Sandro, sobrevivente da Candelária e autor do sequestro do ônibus 174", lembra o psicólogo Gabriel Resgala.

As leis que regem a nossa sociedade não foram feitas à toa. São regras claras, criadas também para que não se cometa um erro justificado por outro. "Todas as vezes que optarmos em deixar o emocional tomar conta da razão, correremos o risco de errarmos em nossos julgamentos e decisões", finaliza Gomes.


Por fim, deixamos a conclusão de Dr. Furlan, que questiona: "O poder público tem que se tornar presente garantindo ao cidadão a segurança e estabilidade social. Mas a sociedade tem que se perguntar: deseja uma sociedade baseada em leis ou na anarquia?".

Por Alessandra Vespa (MBPress)

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