Blog aborda sobre o câncer com humor e positividade

Blog aborda o outro lado do câncer com humor e pos

Foto: Reprodução/ Blog Além do Cabelo

Há algumas semanas o público que assiste à novela "Amor à Vida" acompanhou a rotina da personagem Nicole, (Marina Ruy Barbosa), que sofria de Linfoma de Hodgkin, uma forma de câncer que se origina nos gânglios do sistema linfático. A moça penou um bocado: em muitos momentos parecia perder a esperança de cura e acabou morrendo no altar, no dia do seu casamento, ao saber que o suposto amor de sua vida a traía com sua "melhor amiga".

A ideia passada na ficção, de que as vítimas de câncer passam boa parte dos seus dias chorando e esperando a morte chegar, não condiz com a realidade. A arquiteta Flávia Maoli, de 26 anos, autora do Blog "Além do Cabelo", é uma das pessoas que se esforça para mostrar o outro lado da doença com muita criatividade e bom humor. Como ela mesma diz, ser uma pessoa otimista não garante que vai conseguir se curar do câncer, mas ser uma pessoa pessimista certamente irá piorar a situação.

Em janeiro de 2011, Flávia descobriu um caroço no pescoço (logo acima da clavícula) e percebeu que tinha reação alérgica ao ingerir bebidas alcoólicas. Foram os dois únicos sintomas que apresentou. Tratou-se durante todo o ano de 2011 (de janeiro a dezembro) e ficou em remissão (quando a pessoa está sem a doença, mas ainda em acompanhamento).

Em fevereiro de 2013, ao fazer uma tomografia de controle, descobriram um tumor no tórax, mas a arquiteta não tinha nenhum sintoma. Fizeram a biopsia e tiveram a confirmação da recidiva (quando o câncer volta). Foi o mesmo tipo de câncer que Flávia teve da primeira vez. Fez quimioterapia e agora aguarda para fazer o transplante autólogo de medula óssea, um tipo de imunoterapia.

"Todos os meus amigos e parentes ficaram chocados com a notícia, porque eu era muito nova (tinha 23 anos) e não temos casos de câncer na família. As pessoas queriam dar apoio, mas não sabiam se eu queria falar sobre o assunto. Às vezes usavam frases prontas, de consolo", conta.

Tanto no primeiro quanto no segundo diagnóstico, as pessoas ao redor de Flávia refletiam o estado emocional dela. Se estava triste e abatida, todos ficavam desconfortáveis. "A partir do momento em que eu resolvi levantar a cabeça e seguir com a minha vida da melhor maneira possível, acho que todos se sentiram quase que ‘obrigados’ a se animar também, e aí foi melhor para todo mundo", lembra a arquiteta.

Pelo fato de o tratamento afetar o sistema imunológico, Flávia precisou mudar sua rotina. Só come alimentos cozidos, escalda talheres e copos, passa álcool gel nas mãos constantemente, não pode ter contato com animais de estimação nem ter tapetes em casa e também evita locais fechados e/ou aglomerados. A adaptação foi difícil. "O que eu mais sinto falta é de poder sair, reunir meus amigos e brincar com meus cachorros. Tenho recebido visitas, mas uma de cada vez, e só quando elas estão com a saúde 100%!", revela.

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Foto: Reprodução/ Blog Além do Cabelo

Vaidade, sim. Sempre!

Bela, Flávia se esforçou para manter a vaidade e a autoestima. Ela sabia que o cabelo ia cair com a quimioterapia, mas quis esperar para ver como seria o processo. Os fios foram caindo aos poucos e, a partir daí, passou a usar lenços e perucas.

Quando o câncer voltou a arquiteta se desmotivou e disse que não se arrumaria mais. Mas o alto astral falou mais alto e ela mudou de ideia. "Ganhei duas perucas de amigas que já se curaram, comprei mais alguns apliques, uma peruca e muitos lenços. Aproveitei para me multiplicar. Hoje, acordo e penso: ‘hum, com que cara eu quero sair hoje? Loira? Morena? De lenço? Careca?’ Acaba sendo divertido", comenta.

E com tanta criatividade, por que não compartilhá-las? Tudo começou em janeiro deste ano, quando a clínica onde Flávia fez o tratamento criou o "Dia da Mulher". A ideia era reunir pacientes e ex-pacientes e entregar um panfleto com dicas de beleza e cuidados. Flávia se ofereceu para ajudar e se empolgou. Hoje o material virou um guia, distribuído às pacientes logo no primeiro dia de tratamento, e as ideias da arquiteta foram parar num blog, batizado de "Além do Cabelo".

"Quando descobrimos que estamos doentes, muitas vezes pensamos que é o fim. Mas aos poucos vamos entendendo que o mundo não vai parar por causa disso e nem as nossas vidas! Conforme vamos aprendendo a lidar com a doença, nos sentindo bonitas por dentro de novo, é aí que queremos estar bonitas por fora também!", diz. "A autoestima não é só estética, é o valor que damos a nós mesmos. E tê-la elevada pode, inclusive, ajudar no processo de cura", completa.

Flávia ressalta que existem diversos casos de pessoas que tinham poucas chances de sobrevivência, mas decidiram aproveitar o pouco tempo de vida que lhes restava e estão vivas até hoje! Dois exemplos reais citados por ela são as escritoras Kris Carr (autora do livro "Câncer, e agora?", e que tem um câncer incurável - mas sob controle - há dez anos) e Sophie van der Stap (autora do livro "A garota das nove perucas", que se curou tendo 5% de chance). "Essas pessoas existem e são suas histórias que deveriam ser amplamente divulgadas, servindo de exemplo para quem está enfrentando a doença", acredita.

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Foto: Reprodução/ Blog Além do Cabelo

E por falar em beleza, Flávia fez um "top 5" de dicas pra quem quês enfrentar a doença sem perder a vaidade. Veja só:

1 - Se você começou o tratamento recentemente e está em dúvida sobre cortar ou não o cabelo, Flávia sugere esperar ele começar a cair. Se o couro cabeludo estiver doendo, ou você estiver incomodada em ver os fios caindo, aí vale a pena raspar. Ela diz isso porque, hoje em dia, nem todas as quimioterapias causam a perda total do cabelo, algumas não causam queda nenhuma, inclusive. Não é preciso ter pressa para ficar careca - vale a pena ver como o cabelo vai reagir ao tratamento!

2 - Quando for se despedir das madeixas, uma maneira de tornar a situação menos dramática é aproveitar para testar cortes diferentes antes de raspar. Flávia, por exemplo, pediu para sua irmã cortar e seu pai fotografar. Fizeram vários cortes, alguns bonitos, outros completamente ridículos, e fotografaram todos. Isso lhes rendeu boas risadas, e se ver careca não foi tão chocante quanto teria sido se tivesse "tosado" tudo de uma vez só.

3 - O que mais nos deixa com "cara de quimio" - acredita Flávia - é a falta de cílios e sobrancelhas. Para resolver o problema rapidamente, ela sugere utilizar uma sombra marrom opaca, que é um item coringa para quem está em tratamento. Ela pode ser utilizada tanto para disfarçar falhas e redesenhar a sobrancelha, quanto para criar profundidade no olhar (aplique em toda a pálpebra móvel). Lápis e delineador também são ótimos para ajudar a disfarçar a falta de cílios!

4 - Muitas das mulheres não se "reconhecem" no espelho quando estão carecas. Ao invés de levar isso para o lado triste, que tal ver essa mudança como uma oportunidade de conhecer novas versões de si mesma? Podemos ser lindas carecas, de lenço, de chapéu, com peruca loira, morena, ruiva... Isso pode ser divertido, faz o tratamento ficar mais leve e o tempo passar mais rápido.

5 - Aprenda a ter paciência. Paciência com o seu corpo, com a sua cabeça, com os outros. Às vezes o tratamento atrasa, às vezes queremos estar bem, mas o corpo está cansado, às vezes as pessoas falam coisas desagradáveis sem querer. O câncer e o tratamento exigem calma, paciência e bom humor. Alimentar frustrações faz baixar a imunidade, e ficar doente só piora a situação. Respire fundo e sempre procure uma solução para os problemas que surgirem, um "plano B" - que muitas vezes se mostra muito melhor do que o plano inicial.


Juliana Falcão (MBPress)

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