A questão do preconceito linguístico

O que é o preconceito linguístico que gerou polêmi

Foto/ Divulgação

A definição de preconceito linguístico é: o deboche, a sátira, ou a não-tolerância em relação ao modo de falar das pessoas. Sabemos que dentro de nossa língua existem dialetos e expressões características de acordo com a região. Esta variação inclusa no livro "Por uma Vida Melhor", da coleção Viver, Aprender, do MEC, vem sendo alvo de uma polêmica pelo Brasil.

O debate ficou em torno de como registrar as diferenças entre o discurso oral e o escrito sem tecer comentários preconceituosos, mas ensinando a norma culta da língua. Para o professor Pasquale Cipro Neto, o risco de exageros evidencia para um alerta. "Uma coisa é manifestar preconceito contra quem quer que seja por causa da expressão que ela usa. Mas isso não quer dizer que qualquer variedade da língua é adequada a qualquer situação," afirmou o professor para o jornal Folha de S. Paulo.

A questão discutida é: o livro ensinaria o aluno a falar errado, essa era a chamada da matéria divulgada. Para alguns especialistas é uma demonstração de desconhecimento dos preceitos linguísticos por parte de quem noticiou. Um dos princípios da sociolinguística discute a noção de "certo" e "errado" no uso da língua em função de situações específicas de comunicação, ou seja, a língua não se permite uma maneira engessada de ser.

O MEC diz que não se manifestará em relação ao debate e afirma que o livro está em acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais, PNCs. Estes parâmetros afirmam inclusive que a escola precisa livrar-se de alguns mitos como "o de que existe uma única forma certa de falar, a que parece com a escrita; e o de que a escrita é o espelho da fala".

Uma das autoras do livro, Heloísa Ramos, afirma que a citação polêmica está num capítulo que descreve as diferenças entre escrever e falar. Porém, ela garante que a coleção não ignora que "cabe à escola ensinar as convenções ortográficas e as características da variedade linguística de prestígio".

Para ilustrar:

Um dos capítulos do livro da ONG Ação Educativa, uma das mais respeitadas na área, diz que, na variedade linguística popular, pode-se dizer "Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado". Outro trecho do livro diz: "Você pode estar se perguntando: Mas eu posso falar os livro? Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico".

Alguns linguistas emitiram sua opinião através de jornais. O linguista Luiz Carlos Cagliari vê nesse debate uma questão sociocultural. Em seu livro Alfabetização e Lingüística, Cagliari define: "Certo e errado são conceitos pouco honestos que a sociedade usa para marcar os indivíduos e classes sociais pelos modos de falar e para revelar em que consideração os tem… Essa atitude da sociedade revela seus preconceitos, pois marca as diferenças linguísticas com marcas de prestígio ou estigma."

Segundo o linguista Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras, os PCNs são alvo de críticas por sua posição. "Há uma confusão entre o que se espera da pesquisa de um cientista e a tarefa de um professor. Se o professor diz que o aluno pode continuar falando "nós vai" porque isso não está errado, então esse é o pior tipo de pedagogia, a da mesmice cultural", disse. E ainda afirmou que se um indivíduo vai a escola é porque busca crescimento social e para isso ele precisa conhecer novas formas de agir, pensar e falar.

O professor Sergio Nogueira afirmou em entrevista ao "Bom dia Brasil" que o caso é preocupante, mas sabe que a autora teve boas intenções. Ele afirma que a mudança é uma inversão de valores. "Nessa nova linha de ensino, o certo e o errado são abandonados e as variantes linguísticas são valorizadas. Eu não conheço a autora do livro. Gostaria de crer que ela queria incentivar os alunos a não serem preconceituosos - por sinal, a função de qualquer professor."afirmou.


Já a doutora e professora da UnB, Viviane Ramalho, fonte de argumento de autoridade na matéria do Poder Online afirmou que "o ideal seria aprender todas as possibilidades diferentes até mesmo para respeitar o interlocutor que usa outra variedade linguística".

Por Catharina Apolinário

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