Homens especialistas em alongamento de unhas

Homens especialistas em alongamento de unhas

Henrique de Oliveira em ação

Entrar em um salão de beleza e encontrar um monte de mulheres fofocando e desabafando sobre os problemas da casa e do trabalho é bastante comum. E quando um homem surge nesse local para dar um trato nas madeixas, entra de fininho e se sente um verdadeiro peixe fora d’água, contando os minutos para sair de lá. Não é assim?

Na maioria das vezes é. Mas um salão localizado no bairro da Liberdade, em São Paulo, deu uma mudada nesse contexto e incluiu em sua equipe homens que deixaram suas profissões, conhecidamente másculas, para cuidar de unhas. Achou estranho? Pois é melhor se acostumar, pois segundo a dona do salão, Suely Munekata, os homens se destacam nesse nicho. "Sempre soube que havia muitos homens trabalhando neste segmento em outros países. Tinha vontade de treiná-los e eles começaram a me procurar", explica.

Quando voltou dos Estados Unidos, a primeira ideia que Suely teve foi montar um salão de unhas especiais. Porém, como não havia profissionais preparados para este trabalho, nem produtos confiáveis no mercado, decidiu primeiro montar uma distribuidora, o Empório das Unhas. "Tempos depois, senti a necessidade de criar um centro técnico para ensinar a utilização dos produtos e, após alguns anos, começou a procura pelo serviço. Foi quando montei a Nailshop, um braço da Empório".

O primeiro rapaz a bater na porta de Suely foi Guilherme Santana, um carregador de caminhão que se interessava por desenho. "Foi indicação de uma amiga. Resolvi treiná-lo e ele se mostrou um grande talento", conta. Mas, infelizmente, o pupilo cedeu às pressões da namorada e abandonou o ofício.

Depois apareceu Henrique de Oliveira, segurança da empresa. Vendo o trabalho de Guilherme se interessou e procurou a dona do empreendimento para saber se poderia receber treinamento. "Foi tudo meio que por acaso. Um dia perguntei para a proprietária do Empório das Unhas se homem fazia unha e ela me respondeu que os melhores do mundo eram homens. Comecei a treinar e fui pegando gosto pela novidade. Aí não parei mais", conta. Suely relembra: "no começo achei que não daria certo, porque ele era muito nervoso. Mas, conforme o tempo passava mais ele se dedicava e mais calmo ficava. Tornou-se um ótimo profissional e tem o dom de ensinar com uma paciência invejável".

O professor de capoeira Fábio Lamira procurou Suely e já trabalhava muito bem. "Meu interesse por manicure surgiu há aproximadamente cinco anos. Eu estava morando em Portugal e queria aprender uma nova profissão. Acabei me apaixonando por uma mulher que trabalhava com alongamento de unhas, que me ensinou o trabalho. Vi que já existiam homens trabalhando com unhas e fiquei muito curioso", diz. "Mas além de ter gostado muito do novo ofício, ele também compensou financeiramente", confessa.

Suely não poupa elogios a Fábio. "Ele é um profissional muito dedicado e está sempre em busca de novidades". E a equipe só vem aumentando: "tenho o Paulo e o Lincoln, que já estão começando a dar aulas. E o nosso caçula, Júlio, promete".

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O valor do alongamento no Empório das Unhas é R$150. Cada rapaz atende, em média, 15 clientes (homens e mulheres) por semana e atualmente trabalham mais dando cursos pelo Brasil. "Os homens têm maior facilidade para se concentrar e uma dedicação enorme. "Eles também são muito profissionais, não misturam os problemas de casa com os de trabalho", garante Suely.

Manicure não. Técnico em unhas!

É bom não confundir: os rapazes não são manicures. São técnicos em unhas. "Eles não tiram as cutículas nem esmaltam as unhas. São especialistas em alongamento e decoração. Fazem as unhas (alongamentos) e decorações", esclarece a proprietária.

Suely afirma que a clientela aumentou muito. Porém, acredita que não foi por causa dos rapazes. "O mercado de unhas (técnicas e produtos), em geral, tem crescido muito no Brasil. Acho que a divulgação dos homens é maior entre nossos alunos. A maioria dos clientes do salão, por enquanto, chega sem saber que temos alguns homens trabalhando".

O preconceito rondou e ainda ronda a vida dos meninos. Mas esse obstáculo eles aprenderam a superar. "Como estava em outro país, isso não me afetou muito. Quando voltei para o Brasil senti uma resistência maior, mas com o tempo você aprende a não se importar com isso e as pessoas também se acostumam", diz Fábio. Henrique completa: "até hoje existe preconceito por parte de ex-colegas de trabalho, amigos, conhecidos e até mesmo de alguns familiares".


Dificuldades à parte, os rapazes garantem que de vez em quando recebem uma cantada aqui e outra lá. "Isso acontecia também quando eu dava aulas de capoeira", afirma Fábio. Henrique também reconhece o assédio, mas acredita que isso acontece em qualquer profissão que exija contato entre homens e mulheres. E, diferente das profissionais do sexo feminino, eles garantem que não fazem as vezes de psicólogos. "Não dou conselhos, tento passar tranquilidade. Podemos transmitir energia pelas mãos", diz Fábio. "Também não dou conselhos e evito dar opinião. Na verdade procuro ouvir mais do que falar", declara Henrique. E completa: "esta ‘experiência’ tem me feito entender um pouco mais a cabeça das mulheres".

Por Juliana Falcão (MBPress)

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