Um creme que não funciona, por favor!

A mente humana é um labirinto. Já a mente humana feminina é um labirinto de dez andares, com paredes espelhadas, fumaça de gelo seco, trilha sonora com vozes esquisitas e toques de trem-fantasma.

Por exemplo: uma pesquisa divulgada este ano pelo New York Times, revelou que as mulheres são mais fiéis aos cremes anti-idade que não funcionam do que àqueles que funcionam. Pode?

Pesquisadores da Universidade de Bath e da Universidade de Qatar entrevistaram aproximadamente 300 mulheres, entre 27 e 65 anos, que estavam buscando uma aparência mais jovem, por meio de cremes, vitaminas e outros tratamentos de beleza. Eles identificaram que, entre as mulheres que consideravam que o produto não estava funcionando, somente 27% resolveram parar de usá-lo. Enquanto isso, no grupo que sentia que o tratamento estava sendo bem-sucedido, 55% das mulheres fecharam o potinho para não abrir mais.

É claro que o que está em questão não é a eficácia dos produtos de beleza (algum deles funciona, por acaso?), e sim a percepção subjetiva das malucas que os consomem, ou seja, todas nós.

Os pesquisadores deram uma explicação: as mulheres que não se sentem bem consigo mesmas são mais mobilizadas pelo sentimento de medo do que de sucesso. O medo de parecer velha, faz a pessoa continuar usando o produto, mesmo que ele não funcione. Quando ela sente que a pele melhorou, relaxa e deixa de se preocupar com isso. No final das contas, é tudo uma questão de auto-estima. Auto-estima ladeira abaixo, com um empurrãozinho dos bilhões de dólares investidos na publicidade de cosméticos de última geração: esta é a essência da questão.

Em resumo, para a indústria de cosméticos o fundamental é oferecer cremes que não funcionem. Note a perfeição deste ciclo: (1) criar um padrão de beleza inatingível (ui, que novidade!!!); (2) oferecer produtos altamente tecnológicos que prometam deixar a mulher a um passo de tal beleza; (3) exigir dos cientistas que desenvolvam produtos que não tragam resultados efetivos. Resultado: consumidoras fiéis, comprando sem parar! Mas não pode esquecer do item 3! O importante é não funcionar, porque aí é que elas não deixam de comprar!

Do ponto de vista das consumidoras, se ao menos uma parte do dinheiro gasto em tratamentos de beleza fosse investido em terapia…

Uma a Uma é uma empresa de inteligência de mercado especializada no público feminino. As sócias e colunistas do Vila Mulher, Denise Gallo e Renata Petrovic, ajudam a entender melhor e desvendar as várias faces da mulher contemporânea. Contato: umaauma@umaauma.com.br

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