Obsessão pelo ideal de beleza

Obsessão pelo ideal de beleza

A busca impensada pela perfeição atinge cada vez mais mulheres, de todas as faixas etárias. Nesse meio tempo, surge um problema maior ainda, silencioso: o transtorno dismórfico corporal, ou TDC. Já ouviu falar disso? É um transtorno psiquiátrico, caracterizado por uma preocupação exagerada com "defeitos" mínimos no corpo ou, até mesmo, com o formato das mãos, a altura, a cor de olhos e os cabelos.

"Este transtorno é considerado um ‘secreto’, pois os pacientes têm dificuldades para falar com os profissionais de saúde e se sentem envergonhados e receosos de que suas queixas sejam interpretadas como vaidade", diz a dermatologista e conselheira da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) Luciana Conrado. Segundo ela, que participou da Jornada de Cosmiatria, no início de agosto, realizada pela SBD, as preocupações podem envolver qualquer aspecto da imagem, sendo mais frequentes as reclamações com relação ao rosto, como cabelos finos, rugas e formato do nariz.

Luciana deixa claro que há um limite muito tênue entre o uso da cosmiatria para saúde e bem-estar e o uso da mesma em favor de uma busca desenfreada pela perfeição. Cabe ao médico, ou qualquer outro profissional de saúde, diagnosticar essas preocupações como exageradas e tentar mostrar a realidade ao paciente.

"Além dos aspectos teóricos na cosmiatria, bem como o manejo de drogas e cosméticos, é importante que os dermatologistas estejam atentos ao histórico do paciente. Entre 7% e 15% dos que nos procuram para se submeter a procedimentos estéticos apresentam o TDC, mais conhecido como dismorfobia", alerta a médica, que é membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica.

Esse quadro causa estresse e sofrimento à pessoa, interferindo no dia-a-dia, na rotina, nas relações afetivas e sociais do indivíduo, fazendo com que grande parte dos pensamentos e do tempo sejam focados nessa preocupação. "O corpo hoje é uma referência bastante importante para a construção da identidade. Todos querem ter controle sobre sua aparência e oferecer uma melhor imagem. Além do mais, existem referências que determinam um padrão considerado ideal e que a maioria deseja atingir", relata.

As pessoas que tem o Transtorno Dismórfico Corporal se enxergam de maneira diferente da que as outras pessoas as veem e, nos casos mais graves, evitam até sair de casa, achando que todos irão reparar nos seus ‘defeitos’. As causas que levam ao desenvolvimento do TDC ainda não são bem claras e diversos fatores distintos culminam nessa condição.

O primeiro deles é a sociedade de consumo que super valoriza as formas do corpo e a aparência, quase como um objeto de consumo. "É como se o corpo fosse a grife que utilizamos no nosso dia-a-dia, sendo resultado do trabalho que realizamos sobre ele (exercícios, roupas, corte dos cabelos)", diz Luciana. "O padrão considerado ideal é o da mulher com formas bem definidas e magras, com cabelos lisos e preferencialmente com pele e cabelos claros. Estas características raramente ocorrem na natureza e o que observamos é uma insatisfação e um desejo de realizar alterações no corpo para atingi-lo a qualquer custo."

Outro aspecto importante que pode influenciar são os valores familiares. Educação muito rígida ou estímulo à perfeição física - como se fosse o conceito mais importante do mundo - ou critica recorrente quanto à ‘defeito’, geram uma relação de depreciação que se estende por anos.

A média de idade para o desenvolvimento do TDC fica em torno dos 16 anos. Mas os médicos observam que pode se passar até 10 anos entre os primeiros sintomas e o seu diagnóstico e tratamento por um psiquiatra.

Tratamento e diagnóstico são simples, mas é preciso que toda a comunidade médica e outros profissionais de saúde saibam fazê-lo, uma vez que ainda há pouco conhecimento sobre ele. "É importante que médicos consigam estabelecer um vínculo com o paciente para que ele se sinta confortável em falar de suas preocupações. O médico necessita ter habilidade para explicar o diagnóstico ao paciente com uma conversa franca e direta, sem julgamentos", finaliza Luciana.


O desejo pela melhora da aparência e os procedimentos realizados agem para melhorar a saúde e bem-estar. No momento em que essas preocupações e procedimentos passarem a ocupar um tempo excessivo, interferindo no funcionamento do corpo como um todo, é hora de parar de se olhar tanto no espelho e prestar atenção no lado de dentro.

Por Tissiane Vicentin (MBPress)

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