O sonho da bunda própria

O funk nos mostra, sem rodeios, um projeto de feminilidade que aceitamos consumir em pequenas porções. Mulher Melancia. Mulher Morango. Mulher Jaca. A feira é completa e variada.

O feirante capricha nas ofertas: paga a bunda, leva o peito, arremata a coxa. Chacoalha tudo. Mulher para comer aos pedaços. Raw food. Aceitamos cartão de crédito!

O fenômeno das mulheres hortifrúti invadiu a cena alimentar brasileira. De costas, para quem não viu. Mulheres-suporte remexem seu bumbumcelebridade com entusiasmo nunca visto. No ponto alto da performance, ela - a bunda - é quem está de frente para a platéia. Olhos e boca, peitos e barriga, em geral importantes elementos na composição dos espetáculos rebolativos, aqui se acanham e cedem lugar à protagonista. Se ainda restava alguma dúvida, o funk nos joga na cara: a bunda é o poder!

“Onde este mundo vai parar?”. “Imaginem: chamar a mulher de filé!” “Que horror: usar o corpo desse jeito!”. “Só podia ser coisa do funk!”. Pois eu acho que Mister Catra, ao passar o cartão de crédito no bumbum da Mulher Filé, está dando uma imensa contribuição às reflexões sobre o projeto de feminilidade propagado pela mídia contemporânea. Afinal, esta imagem sintetiza, como poucas, o ideal de consumo que sorvemos mensalmente nas páginas das revistas: o corpo turbinado, representação da mulher poderosa, em relação obscena com um cartão de crédito. Nada mais preciso.

Ou existe alguma dúvida de que o corpo saradão, sujeito a toda sorte de intervenções médicas e estéticas, é o que faz a roda da mídia feminina girar? A fronteira que separa o sucesso do fracasso? Por que os closes de pedaços de corpos erotizados, que se pretendem modelos, não nos choca nas páginas das revistas “chiques”? E encarar que o bumbum da Mulher Melancia seja objeto de desejo de tantas jovens nos parece curioso? Da mesma forma, não vejo muita diferença entre chamar a mulher de jaca ou filé e colocar uma modelo dentro de uma forma de brigadeiro para vender xampu. A não ser o fato de as primeiras serem produzidas pelos “excluídos” do funk e as segundas pelos “incluídos” da publicidade, com suas artimanhas discursivas tão mais sofisticadas.

A crueza do funk não deve ser vista como uma aberração, mas como um convite a entrarmos em contato com a realidade de que a construção da subjetividade via corpo sedutor ainda move o feminino no século XXI. Não é por acaso que, no site das três maiores revistas femininas do país, a busca pela palavra-chave “corpo” produz 5 vezes mais ocorrências do que “mente”; 11 vezes mais ocorrências do que “política”; 23 vezes mais ocorrências do

que “solidariedade”. Viva o banho de realidade da bunda do funk!

Por Denise Gallo (sócia da Uma a Uma) / Texto publicado na Revista TPM/ed.fevereiro

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Uma a Uma é uma empresa de inteligência de mercado especializada no público feminino. As sócias e colunistas do Vila Mulher, Denise Gallo e Renata Petrovic, ajudam a entender melhor e desvendar as várias faces da mulher contemporânea.Contato: umaauma@umaauma.com.br

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