Mulheres brasileiras não sabem envelhecer?

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O que você faria se descobrisse que não sabe envelhecer? A pergunta pode parecer estranha, mas uma pesquisadora descobriu que as brasileiras não sabem! Mirian Goldenberg é doutora em antropologia e autora de diversos livros, inclusive um que trata das ‘coroas’ daqui. Ela descobriu que a cultura da juventude, da magreza e do corpo perfeito, veiculada massivamente pela mídia, obriga a brasileira a investir no corpo jovem e magro. Em outras culturas, o investimento em outros capitais é muito mais importante para a mulher.

“A partir dos dados da minha pesquisa comparativa com mulheres brasileiras e alemãs de mais de 50 anos, posso dizer as brasileiras não sabem envelhecer bem”, afirma. Na observação entre dois universos, as alemãs pareceram mais confortáveis com envelhecimento. “No Brasil, tenho observado um abismo enorme entre o poder objetivo, o poder real que elas conquistaram e a miséria subjetiva que aparece em seus discursos”. Essa miséria diz respeito a assuntos como gordura, flacidez, decadência do corpo, insônia, doença, medo, solidão, rejeição, abandono, vazio, falta, invisibilidade e aposentadoria.

Ao observar a aparência das alemãs e das brasileiras, ela percebeu que aqui as mulheres se parecem mais jovens e estão em melhor forma, mas o que sentimos é de desvalorização. “A discrepância entre a realidade objetiva e os sentimentos subjetivos das brasileiras me fez perceber que aqui o envelhecimento é um problema muito maior, o que pode explicar o enorme sacrifício que muitas fazem para parecer mais jovens, por meio do corpo, da roupa e do comportamento. Elas constroem seus discursos enfatizando as faltas que sentem, e não suas conquistas”.

Comparando os discursos, Mirian chegou a conclusões interessantes. No Brasil, segundo ela, se dá ênfase a decadência do corpo e a falta de homem é uma característica do discurso das brasileiras. “A ideia de falta, de invisibilidade e de aposentadoria só apareceu no discurso das brasileiras. As alemãs enfatizaram a riqueza do momento que estão vivendo, em termos profissionais, intelectuais e culturais”, diz.

As alemãs consideram os 51 anos um momento de grande realização e possibilidades, valorizam o trabalho, a saúde e a qualidade de vida que conquistaram. Acham ‘falta de dignidade’ uma mulher querer parecer mais jovem ou se preocupar em ‘ser sexy’, além de imaturidade e infantilidade incompatível com o esperado para uma mulher nesta faixa etária. “O corpo, para elas, não é tão importante, a aparência jovem não é valorizada e, sim, a realização profissional, a saúde e a qualidade de vida. Algumas me disseram que não compreendiam por que a mulher brasileira gosta de receber elogios e cantadas na rua. Uma delas me disse uma vez: ‘você mesma é que deve se sentir atraente e não precisa de ninguém para dizer se é ou não. É uma falta de dignidade ser tão dependente dos homens’”.

Questionada sobre o pânico do envelhecimento, Mirian diz que numa cultura onde o corpo é um capital - mas que ter um marido parece ser ainda mais importante ainda -, é muito difícil e quase dramático, envelhecer sozinha. “Mas aprendi, e continuo aprendendo, com mulheres como Leila Diniz, Simone de Beauvoir, minhas pesquisadas alemãs e agora as brasileiras, que é possível envelhecer com menos sofrimento, se valorizarmos e investirmos em outros capitais, e não apenas no capital físico ou no marital’”.


O livro “Coroas: Corpo, Envelhecimento, Casamento e Infidelidade” (Ed. Record) é resultado da reflexão de Mirian sobre o envelhecimento, com base em entrevistas e grupos de discussão feitos com mulheres no Rio de Janeiro e na Alemanha. Nele pode ser encontrada ainda muita reflexão sobre a dobradinha corpo e sociedade, tema que ela estuda há mais de 20 anos.

Por Sabrina Passos (MBPress)

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