Garotas Geeks - belas e inteligentes

Garotas Geeks  belas e inteligentes

Lucia Freitas e Nanda Mota

Lucia Freitas é jornalista e tem 45 anos. Já Nanda Mota, publicitária, tem 29. Em comum, Lu e Nanda são blogueiras e se consideram nerds. Ao contrário do estereótipo esperado pelo grande público, elas são geeks muito bem arrumadas, entendidas de moda, maquiadas e, claro, inteligentíssimas, como se pode observar durante a 4ª edição Campus Party.

"Geek não tem nada a ver com internet, é um estado de espírito e tem a ver com outras coisas. É uma cultura, então tem mangá, HQs, filmes, séries de TV. A cultura geek é uma coisa muito maior que a internet", explica Lucia, que frequenta a Campus Party desde a primeira edição.

Geek = Velma?

Para Nanda, a origem desse padrão Velma (a garota nerd do desenho "Scooby Doo") é muito mais profundo do que parece. "Durante um bom tempo, as mulheres bonitas tinham que se esconder como mulheres inteligentes, como se você tivesse que optar. Se você é bonita, você é pra casar, e pra casar você tem que ter outros dotes que não sejam exatamente pensar, essa parte de pensar ficava mais pro homem. Acho que isso é uma tremenda palhaçada", desabafa a publicitária.

Nanda, que, junto a mais três mulheres, tem um blog sobre futebol (o "Clube da Bolinha, por Luluzinhas", que ganhará um livro), sente o preconceito bem perto. "As pessoas se chocam muito com as coisas. Mulher não pode entender de futebol, mulher bonita não pode ser inteligente, mulher inteligente não pode ser sociável".

Infelizmente, estereótipos estão em todas as partes da sociedade e as mulheres nerds são apenas uma parcela das milhões que passam por situações delicadas em seu cotidiano, principalmente profissional. Assim como a Lu que, sendo alta e magra, supostamente deveria ser modelo - padrão que não deixa a jornalista nada satisfeita.

"Mas, peraí, veio na minha certidão de nascimento 'você vai ser modelo, filha'? Eu não posso escolher o que vou ser e misturar entre as muitas possibilidades?", exalta-se.

Era da interseção

Lembram daquela "nerdzinha" rejeitada dos filmes americanos dos anos 90? Esqueçam. Aproveitem e façam isso com qualquer molde pré-estabelecido em sua cabeça porque isso está em extinção - e aqui estamos falando de mudanças sociais palpáveis.

Nanda compara esses moldes com pacotinhos: para ela, é como se as pessoas viessem em pacotinhos fechados em uma prateleira, sem que combinações fossem possíveis. "Não existe nenhum pacotinho que vem com vários modelos, não tem um checkbox [elemento gráfico de informática que permite o usuário escolher várias opções em, por exemplo, enquetes] para você falar assim: 'essa pessoa tem isso, isso e isso'. As pessoas não entendem o conceito da interseção. Você escolhe o que você quer ser", ilustra.

Mas esse "vício social do estereótipo", como denomina Lucia, só destaca o quão interessante são as pessoas que fogem disso. E Nanda completa: "As pessoas vão se 'taggeando' [neologismo para ‘colocar tags’, ou seja, etiquetas, termo muito usado na internet] e a coisa mais engraçada que existe são as pessoas ‘multitags’, que durante uma semana inteira conseguem usar a camisa do Flamengo até o tailleur pra ir trabalhar, do Allstar ao salto alto. Acho que as pessoas, na verdade, deveriam ter orgulho de serem várias coisas, não uma só".

Ousadia

Cabe dizer que foram as garotas consideradas geeks que revolucionaram algumas coisas. Considerando o macro, Ada Lovelace foi a primeira pessoa a programar na história. Grace Hooper, cientista americana, fez o primeiro compilador [simplificando, é um programa que lê um programa escrito em uma linguagem e o traduz em um programa equivalente em outra linguagem], usou pela primeira vez o termo "bug" [sabem aquele erro que dá no funcionamento de um programa?] e criou a linguagem de programação que deu origem ao COBOL, uma outra linguagem usada em, principalmente, negócios e sistemas administrativos.

Já no micro, as meninas explicam: "A garota geek de hoje é a garota que eu vejo usando o esmalte roxo, verde, preto, cinza", mostra Lucia. E mais: são essas as mesmas que participam ativamente de movimentos contra a homofobia, a favor da igualdade de gêneros etc.

Nanda completa a amiga: "As meninas geek hoje em dia são essas mulheres inteligentes e que quebram estereótipos. São essas mulheres que têm coragem de cortar o cabelão, de pintar a unha de colorido, de se expor ao ridículo. E elas não estão nem aí, porque elas estão dispostas a brincar".


Definitivamente, a era de tags e estereótipos tem seus dias contados. Pelo menos se depender dessas mulheres que fizeram coro na Campus Party 4: existe vida inteligente por trás da saia segurando o joystick. E de batom e rímel ainda!

Por Ana Paula de Araujo (MBPress)

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