Espelho, espelho meu

Cinco mulheres conversando e se divertindo muito em uma mesa de bar. Caipirinhas, cervejinhas, petisquinhos, conversinhas. Amigas há mais de 15 anos, ninguém poderia duvidar, já haviam vivido muita coisa juntas. Muito riso, muito choro e muitas velas.

Curioso como, de uns tempos para cá, conversas existenciais, angústias apaixonadas, incertezas desesperadas, e até recordações divertidas, como a da primeira viagem juntas, tenham dado lugar a um certo assunto esquisito, que chegou chegando, bem de mansinho, foi se instalado entre elas e que, meio assim, como quem não quer nada, virou praticamente um sexto convidado até que, finalmente, transformou-se na pergunta que não quer mais calar: “quem aqui vai entrar na faca primeiro?”

Na primeira vez, as reações foram incisivas: “Tá louca? Minhas rugas são minha história!”, “Nunca, não troco as marcas de três amamentações por nenhum peito empinado”, “Jamais! Eu sou assim e pronto. Gosto de ser natural”.

Mas, argumentos consistentes existem para serem derrubados, o que, evidentemente, foi feito sem muito esforço: “História? Escreve um livro, uai!”. “Amamentações? Para que servem álbuns de fotografia?”. “Sou assim e pronto? Então por que faz terapia há 20 anos?”. “Natural? Deixa isso para os pepinos e os tomates”. “Humm, é mesmo, né? Pensando assim…”.

Certo. Elas não são as únicas. Isso todo mundo sabe. Metade das brasileiras já considerou a hipótese de fazer plástica, e o índice das que já fizeram é o mais alto do mundo, segundo pesquisa da Dove.

A vaidade é um valor brasileiro que se espalha feito chuchu na serra. Segundo pesquisa da Avon, a mulher brasileira é a mais vaidosa do mundo. 90% consideram os cosméticos uma necessidade e assumem que a aparência é importante para definir quem são. Dos pés à cabeça (aliás, a indústria de cosméticos define as consumidoras brasileiras como “loucas por cabelos”), a mulher brasileira tem uma relação passional com sua aparência física.

Idade ou situação financeira estão longe de serem fatores limitantes para a busca que não acaba. Que mulher, afinal, picada pelo mosquito do “desejo da transformação mágica” pode resistir a novidades como consórcio de produtos de beleza e cirurgias plásticas em 24 prestações?

Vaidade, vaidade! Vaidade intelectual? Passa mais tarde. Alimento espiritual? Estou sem fome, obrigada. Equilíbrio emocional? Ai, que chatice! As brasileiras querem mesmo é ser lindas. O padrão de beleza difundido pela mídia, às vezes (bem às vezes) libera um “pode ser gordinha” aqui, outro “pode envelhecer” acolá. Mas ainda prevalece o discurso monotemático que torce para que um espelho gigante, cheio de fotos de modelos incríveis, instale-se definitivamente na vida de cada voraz consumidora.

Uma a Uma é uma empresa de inteligência de mercado especializada no público feminino. As sócias e colunistas do Vila Mulher, Denise Gallo e Renata Petrovic, ajudam a entender melhor e desvendar as várias faces da mulher contemporânea. Contato: umaauma@umaauma.com.br

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