A busca pelo corpo impossível

A busca pelo corpo impossível

Em uma sociedade em que as mulheres lutam diariamente para alcançar um ideal de beleza distante do biótipo da maioria, surgem preocupações com a possibilidade do excesso de vaidade se tornar um problema de saúde pública. É fato que cada vez mais e mais cedo, as mulheres se submetem a tratamentos para emagrecer, alisar os cabelos e perder os famosos pneuzinhos.

A psicóloga Rachel Moreno, formada pela Universidade de São Paulo, analisa esse comportamento sob o foco da influência mídia, da publicidade e dos interesses do mercado na formação das crianças e adolescentes. Os estudos resultaram no livro A Beleza Impossível - Mulher, Mídia e Consumo (editora Ágora).

A busca pelo corpo impossível

Em entrevista ao Vila Batom, Rachel, que trabalha com pesquisa sobre a mulher e atua no movimento feminista, explica que as brasileiras sofrem com a busca por um corpo ideal baseado no perfil europeu, muito diferente do perfil brasileiro que é o responsável pela fama da beleza da mulher brasileira. Reflexão pertinente no mês em que comemoramos o Dia Internacional da Mulher!

“Só em 2003, as mulheres brasileiras gastaram 17 bilhões na compra de cosméticos. Fazemos a festa dos cirurgiões plásticos, que, agora, ainda se dispõem a operar em suaves prestações mensais.”

Porque as mulheres buscam tanto a beleza ideal?

O modelo de beleza, que existiu em outros tempos, nunca foi tão extensivo a todas as mulheres, e nem tão intensa e amplamente divulgado. O mercado e a mídia se somam neste bombardeio cerrado de divulgação do modelo de beleza "ideal", promovendo a sensação de que já não basta acumular todas as nossas frentes de atividades e ter sucesso nelas se, ainda por cima, não formos "vaidosas", "cuidadas" e "belas".

O ideal de beleza e o desejo de perfeição criam quais efeitos colaterais nas mulheres?

Os problemas decorrentes perceptíveis têm sido o rebaixamento da auto-estima das mulheres, além de problemas de saúde, que chegam à bulimia e anorexia, por exemplo.

O excesso de vaidade pode se tornar um problema de saúde pública, dada a interferência da mídia, da publicidade e dos interesses do mercado na formação das crianças e adolescentes?

Sim, tanto é que, na Inglaterra, decidiram medir o impacto da bulimia e anorexia na demanda na rede de saúde pública (o que nós, aqui, não mensuramos). E, diante dos resultados, o governo britânico teria pedido aos fabricantes da Barbie, que passassem a produzi-la com uma cintura mais larga - já que, naquela, não caberiam o estômago e intestino.

As brasileiras têm baixa auto-estima?

Uma ampla pesquisa realizada em dez países pela empresa Unilever em 2004 mostra que, dos países investigados, entre eles Estados Unidos, Inglaterra e França. O Brasil aparece como aquele em que as mulheres estão mais desconfortáveis consigo mesmas. Além disso, é a que mais se dispõe a sacrifícios para se aproximar mais deste ideal.

Fale sobre o conceito “diversidade da beleza"

Somos um país, cuja matriz de constituição inclui as negras, brancas e indígenas. Temos, em consequência disso, uma beleza peculiar e grande diversidade de aparência. É o que cria a fama de beleza da mulher brasileira. Mas nos defrontamos com um modelo impositivo e eurocêntrico - a beleza de uma mulher jovem, necessariamente branca, magra, de cabelos lisos, preferencialmente loiros. Nada mais distante da nossa diversidade. E, no fundo, o que temos de mais belo é o que cada uma de nós tem de diferente, de peculiar. Que sentido faz querermos nos tornar uma nação homogênea de "barbies"?

Por Larissa Alvarez

Comente